domingo, 24 de março de 2013

De-cisão...

De-cisão...
Ao longo da vida, somos levados a de-cidir sobre os rumos de nossa trajetória. Dia após dia, o tempo nos cobra posturas de-cisivas. Escolhas profissionais, valores pessoais, conflitos afetivos, relações interpessoais, frequentemente surgem como fantasmas, assombrando o universo mental da humanidade.
O ensinamento da sabedoria milenar dos mestres iluminados traz, no entanto, um simples e singelo provérbio, bem atual: “faça de tua boca um canal de água pura”. De-cidir pela pureza das palavras...
Por conseguinte, várias serão as consequências desta de-cisão. A mudança de espaço (não propriamente físico) é o primeiro sinal. Ou seja, a presença de uma atitude mental renovada. Isso nos ajuda a refletir mais acuradamente sobre os pontos de conflito entre hábitos, valores e atitudes. Quando eu opto, por exemplo, por beber água, em vez de refrigerante, estabeleço uma cisão, isto é, uma separação ou quebra no percurso até então estabelecido.
Como sabemos, adentrar no caminho desta jornada não é fácil, pois nos cobra responsabilidade, e isso tem implicações pessoais profundas no cotidiano. Não se trata apenas de uma “mudança de hábitos”, mas de olhar o mundo com os olhos da cisão.
Como de-cidimos pelo deslocamento do antigo espaço habitado, então passamos a buscar outros modos de habitação. Somos com isso lançados no terreno da escassez. Sentimo-nos como abandonados em um deserto. O deserto da de-cisão.
Por isso, caminhar ao longo de uma estrada com pedras, repleta de árida presença de plantas contorcidas e gafanhotos, água escassa, calor escaldante durante o dia e frio intenso à noite, pode gerar medo e desconforto. O deserto, então, torna-se uma realidade à nossa frente. De-cidimos, contudo, atravessá-lo...
Nesta travessia, uma constante sensação de perda parece dilacerar a alma, a cada passo, a cada de-cisão. Ir por um caminho é optar não ir por outro. Um jogo de-cisivo, mas profundamente transformador.
Após esta longa e sofrida jornada, renascemos para a adesão, a fim de sermos renovados pela água cristalina da renovação interior. Surge assim o caminho da pureza, pois a aridez do deserto foi ultrapassada. O novo caminho a seguir vislumbra os primeiros sinais de mudança, agora compreendida como fruto de uma adesão.
A adesão prepara o terreno para a práxis, isto é, a ação livre e consciente. Quando assumimos os riscos de nossas de-cisões, e aderimos ao projeto incondicional da luta pela vida, nossas ações tornam-se translúcidas como as palavras do Mestre: “nem só de pão vive o homem”...
A ação toma agora a dimensão da livre adesão, ao que chamamos de “liberdade dos filhos de Deus”. Ao sairmos da situação aprisionada pelo horizonte limitado do egoísmo, respiramos a ternura dos lírios do campo, oxigenados pela simplicidade dos gestos de paz.
É um caminho árduo, mas ele nos aponta para a plenitude. Por isso, a cada dia, nossa de-cisão nos aponta uma adesão, livre e consciente, fundada na alegria duradoura do espírito sereno e transformador do amor.
O amor, sereno e benfazejo, translúcido auspicioso a nos dizer: de-cide.
Paz e Luz!
Namastê!
Jorge Leão
Em 22 de março de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Entre as ruínas da angústia em Nauro Machado


Entre as ruínas da angústia em Nauro Machado

                             Jorge Antônio Soares Leão[1]
O encontro do poeta com as ruínas da cidade, vendo-se enquanto visceral angústia de ser o pó que a cada dia perpassa a decrepitude do tempo. Eis o percurso inglório da poética naurina, em vigoroso processo de afirmação de um eu lírico perpassado pela angústia de fazer da poesia sua jornada humana por excelência.
Como exemplo disso, é possível observar, em Pátria do Exílio (2006), que Nauro Machado lança-se a si mesmo e sua cidade natal, São Luís do Maranhão[2], como horizonte poético de sua própria busca, mais uma vez vitalizando em sua poesia a “exploração aguda de todos os estados mais angustiantes da consciência humana” (LEÃO, 2001, p. 97).
É neste cenário que a alma do poeta torna-se desse modo abrigo de um inquieto semblante fecundo, a narrar o percurso de suas periclitantes agonias diante das ruínas do tempo. Assim, diz o poeta:
Sou a pátria do exílio agora,
nela andando em minha essência. (MACHADO, 2007, p. 23)
Ao tematizar sobre o drama de sua exploração mundana, no ser que caminha na fugacidade da existência, os versos de Nauro Machado nos apresentam uma cidade calcada pela dor de saber-se única em sua contínua asfixia. Este tema acompanha a obra poética do autor, como um traço manifesto de seu olhar sobre sua cidade natal.
É, com efeito, a imagem de um corpo em decomposição, que aproxima o poeta de seu espaço em torno da miséria e do tempo em ruínas, tornando-se fecundo narrador de sua peregrina passagem pelas ruas de seu tempo existencial. Vejamos o soneto 10, de sua obra A Rosa Blindada (1990):
Cantar-te-ei, cidade, qual se amada
fosses até o final dos que têm ossos,
para, no amor, cantar-te desamada
a destroçar-me ao chão dos meus destroços.
Cantar-te-ei, cidade, em todo e em cada
imundo beco ou rua aos passos nossos,
e em moribunda noite à madrugada
trazendo o chumbo dos soluços grossos.
Cantar-te-ei, cidade, o início e o fim
com todo o corpo. E até no podre rim
carregado por crápulas fiéis,
cantar-te-ei, de imunda, o Senhor Morto
me conduzindo ao cais do último porto
onde dormirei eterno sob teus pés. (MACHADO, 1991, p. s/n)
A cidade constitui, com isso, o encontro do poeta com a sua angústia cotidiana, sobretudo quando a vê em ruínas, abandonada pela vulgar passagem de quem apenas reflete sobre ela o traço dominante da atroz perda de memória com o seu útero. Por isso, a poesia de Nauro Machado reveste-se de imagens viscerais para dar ao corpo, que é também ruína, o espaço real de sua peregrinação. De modo a proclamar em Lamparina da Aurora (1998):
Minha ofensa tomba
Aos teus pés, cidade.
(Inatingido alto
do meu chão corpóreo.) (MACHADO, 1998, p. 333)
A fugacidade da existência, que todo momento se volta como ponto reflexivo em sua obra, nos conduz à problemática visceral do corpo, e, desse modo, o poeta sente-se em estado de vigília sobre o encontrar-se no tempo-espaço permanente de seu ethos[3] natal, como um peregrino lutando por dar à sua lida diária o olhar de quem resgata do abandono e da miséria o pensamento situado como espaço a ser habitado pela poesia. Isto reflete a própria angústia do humano, como essencial peregrinação do ser diante da finitude.
Contudo, será por meio de um verbo inaudito e avassalador que o traço poético do autor encontrar-se-á diante das contraditórias artimanhas de um tempo fatalmente arruinado pela busca do valor infértil das coisas produzidas em seu lócus citadino.
Este conflito traz à angústia de sua peregrina memória poética o espaço propício capaz de desconstruir com o fim meramente utilitário das coisas e de seu pretenso domínio fugaz, enquanto redução do humano a uma inautêntica existência. Será, pois, com a palavra que se reconhece, no poeta, a remissão do humano, pois somente nela é possível a liberdade criadora da própria existência. Assim nos diz o autor de A vigésima jaula (1974):
Pois sem palavra não pesa
um corpo morto, e sem ela,
a palavra, é morta a vida,
só a palavra diz do peso,
inda que a sustente o etéreo. (MACHADO, 1974, p. 7).
Palavra que assume o compromisso de fazer-se presença daquilo de que se ocupa o poeta: a angústia do ser humano diante de sua finitude. Por isso, ainda nos afirma Nauro, em O cavalo de Tróia (1998):
Não entra no poema o exterior a ele:
o sossego infinito do universo. (MACHADO, 1998, p. 239)
E não seria outro o ofício deste peregrino do ser, uma vez que é no interior do poema que se encontra a fecundidade da existência. Por isso, o poeta adoece com a realidade. O seu pathos, ou seja, sua capacidade de estar ligado poeticamente ao mundo, é de onde se vê inaugurado o desassossego do humano. A realidade é tomada pela angústia do poeta, ao lançar-se como tecelão da existência. Ele vai tecendo a existência, enquanto traça em versos os incansáveis gritos de sua agonia telúrica.
Na mesma obra, ainda nos apresenta o autor a seguinte afirmação sobre a angústia:
Não me aposentarei jamais da angústia
(meu simples deglutir digere a angústia)
a perseguir-me neste único emprego
sem paga e valia, exceto a de ser-me. (Idem, p. 238).
O poeta é, desse modo, penetrado existencialmente por saber-se como um contínuo processo de fazer-se como poeta no mundo. Assim, ele se faz no mundo como prisioneiro consciente de sua tarefa ocupacional, que reverbera em si o passar do tempo como momento oportuno, afirmando-se pela fecundidade da palavra.

Por duas mil angústias, ó poeta,
as coisas todas, que falam a sós,
falarão por ti a voz plural. Completa. (MACHADO, 1990, p. s/n).
Como Prometeu acorrentado à pedra do destino inexorável, o poeta existe na experiência cotidiana de sua arte, como devorado pela águia de um deus inclemente, ao visitá-lo pelo acordar a cada dia sedento por um novo parto da palavra. Neste espaço situado, ele se descobre alguém que fala da angústia humana, pois a traz consigo visceralmente.
Como Ariadne, ele lança seu fio existencial no labirinto do tempo. Contudo, não espera ser libertado por Teseu deste seu habitat visceral. Por debaixo dos espinhos das linhas em branco do papel à sua frente, o poeta aprende, assim, a cada hora sofrida, a deitar-se ao lado de seu destino humano, e de sua ocupação originária, fecundada pela angústia de ser poeta por toda a existência.
E em sua cidade este drama renasce a cada dia. Será neste cenário, escavado pela solidão do fazer-se duramente poeta, que a palavra ressoa nas ruas, ruínas e becos da vetusta cidade. Enquanto corpo, pelo cotidiano de seus passos, o olhar arguto do poeta refaz a trajetória de uma história fadada à decrepitude no tempo do seu findar-se.
Não obstante este drama fatídico, o poeta descobre-se, pelo encantamento de sua fecunda imaginação, refazendo-se em busca de um ser mais pleno de poesia. Ainda que seja desesperador viver diante do perceber-se faminto de vida, tendo à frente a sua terra natal abandonada pelas pedras de uma visão turva e envelhecida, o poeta lança sua sina como um chão a ser pisado pelas torturantes feituras de seu próprio fenecer.

Ó terra do meu medonho
Despertar horizontal,
No imaginário que ponho
Aberto para o real,
Querendo sonhar meu sonho
Antes do sono final! (MACHADO, 2007, p. 77).

Na solidão de seus estreitos espaços, a cidade fecunda a imaginação do poeta, enquanto observador da morte em vida, vendo com isso o drama de sua existência enquanto fertilidade do ser, transmutado pela dor em seu abandono temporal.

Ó São Luís, chão que é mais
Do que tudo o que me fez:
Se é Natal, e tudo é paz,
Sem Maria alguma em prenhez,
Eu sou quem morto em mim jaz,
Vivendo a morte outra vez. (Idem, p. 72).

Encontramos, portanto, uma leitura da angústia indissociável do ser que se situa no espaço-tempo de sua cidade. Aqui reside uma das mais percucientes abordagens existenciais da poesia naurina. Por lançar-se como cenário cotidiano de si mesmo, o poeta, e com ele a cidade, encontram-se em constante processo de interlocução, no chão árido de suas vicissitudes.

E pela terra interposta

Entre mim e a sua medida,

Esse sonho é como a aposta

Que fiz entre mim e a vida:

Eu, a carregá-la na costa,

Ela, a olhar-me em despedida (Idem, p. 78).

Como palavra situada no pesadume de sua finitude, o poeta invoca a dor de uma existência que se doa no espaço de uma vida dedicada diuturnamente ao drama inquebrantável de sua peregrinação mundana.

Assim, vê-se na poesia de Nauro Machado um trajeto onde o ser do poeta está entranhado com o ser de sua cidade, pois nela se faz e refaz a angústia de tornar-se o que é, ou seja, poeta, que se vê na dureza de seu ofício a fecundar a palavra com o ser de sua alma em angústia.  

Referências
LEÃO, Ricardo. Tradição e ruptura: a lírica moderna de Nauro Machado. São Luís: Fundação Cultural do Maranhão, 2001.
MACHADO, Nauro. A vigésima jaula. Rio de Janeiro: Olímpica Editora, 1974.
______. A Rosa Blindada. Brasília: Editora Alhambra, 1990.
______. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Imago Editora; Fundação Biblioteca Nacional Universidade de Mogi das Cruzes, 1998.
______. Pátria do Exílio. (Terceiro e último canto do poema Trindade Dantesca). São Luís, Lithograf, 2007.


[1] Professor de Filosofia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, Campus São Luís Monte Castelo.
[2] Onde nasce no dia 2 de agosto de 1935.
[3] Palavra grega para designar “morada”, “habitação”, “cuidado”.

O Cristo está sem altar em todos os altares...

O Cristo está sem altar em todos os altares...


E nos terreiros, procissões, mesquitas, igrejas e templos...

Lá ele canta, renovando em nós o povo peregrino.

 
Ouço-te, ó Cristo, cantar ao som dos tambores seculares africanos,

festejando a partilha da água e do pão.

 
O irmão é acolhido pelo coração puro, nada de cascas ou personas doutrinárias.

A irmã que chega é bem-vinda, não importa se ela traz consigo a imagem de irmã...

 
Neste novo tempo, vejo o Cristo sentado ao lado dos grandes profetas, vendo a Deus face a face, sem exigir confissões de ninguém para comer em sua mesa...

Agora, irmanados que estamos pelos corações livres de pecados, amarras doutrinárias, sectarismos, punições, culpas ou remissões, chamamos a Deus de pai, de mãe, de irmão e de irmã...

Vejo o Cristo livre das convenções dos cargos hierárquicos ou da autoridade fechada em si mesma...

Ele é um servo, ele, o pastor...

Ele canta na língua materna da terra...

Ele celebra junto com o povo, na mesa da partilha...

Ele chama as crianças, as viúvas, os sem voz, para o seu altar sem santos...

E eis que os santos surgem sem altar...

Então, a vida é parte deste momento...

Tudo se reconcilia, religando o céu à terra...

 
E o Cristo renasce como estrela cintilante no céu de nossas constelações irmanadas.

A todos os altares, o mesmo amor e graça.


Jorge Leão

13 de fevereiro de 2013

Dos meus poros escorrega

Dos meus poros escorrega
Sei das mãos que se passam em terra alheia
Como esta escalada em que feito pó estamos todos
Ventos e cascalhos, quando todos dormem
Mas, detenho-me a apreciar o singelo segredo das manhãs...
É como um cenário posto em chama
Meu corpo, invadido pelo mar, a cada estação
Fatídico espetáculo de última hora
Sei das perdas de cálcio neste mundo trôpego...
Dos meus poros escorregam a dor e a saudade
Como ratos e baratas em torno de livros de infância
Assim percorre meu semblante, e o dia ainda tardio
Por cima de tempos repletos de memória...
Nas esquinas de meus ossos, vejo-te acordada
É o teu corpo deitado, aberto ao sol da manhã
E o simples desejo de morrer, acaba sendo outro
Por quase uma vida, no lugar das notas dissonantes...
Assim, arco em fino vergar-se, deixo o dia caindo
Mais e mais... sou assim como segredo de poeira estelar
Passando em velozes constelações, brilhos fugazes
Fratura recôndita, que em meus travados eixos me lançam...
Jorge Leão
11 de novembro de 2012

Reencantos

Reencantos
                                                                                         Durante o Encontro do Evoé!
Junto à passagem da memória,
na ausência dos caminhos,
apontando linhas como uma festa inacabada...
As margens...
Este rio que nos traz ao fundo originário desta jornada
que não se dissolve com o tempo...
Pedras como um corpo dilacerando-se,
sem o tempo que tínhamos na infância.
Nossos fios de cabelo, que se perdem entre nossos cupins intestinais.
Sem pressa, estamos à escuta como frutos
caindo pelo lento e contínuo desfazer-se de velhos galhos contorcidos...
Entre memórias e lentas recordações,
nossas palavras derramam na terra o sangue de nosso abraço incontido.
No quintal, o sol torna-se uma palavra.
No quarto, minhas mãos ainda sujas de barro...
agora vejo as sementes da philia fecundando em nossas almas
a lenta retomada de nossos sentidos fugazes...
Até o momento, nossos passos são pedras decaídas no imenso oceano deste silêncio,
que acompanha a morte em torno de nossas bocas comovidas pelo desejo do reencontro...
o que nos envolve como a canção ao fundo...
como poeira estelar, até que os abraços acontecem...
Corpos que se entrelaçam e se refazem,
pois agora as palavras são como gotas de chuva,
bastando o encontro e um semblante puro.
Agora, nossos olhos se encontram diante das mãos
que acordam as sementes no fundo da terra...
São os versos que se entrelaçam em nossos corpos...
até o momento, o cuidado ainda provém de nossos encantamentos,
mas está o tempo próximo...
e nele mãos e pés serão o encontro de um olhar à terra
prometida que nos acolhe a cada amanhecer...
Evoé! no Bar do Leó - na madrugada de quase lua cheia, do dia 24 de novembro de 2012
Presentes: Wandeco, Fred, Rodrigo, Jorge, Rafael, César e Bernardo.

Deus é uma criança...

Deus é uma criança...
Brincando nos campos
Sorrindo, contente, ao ver o sol da manhã
E as flores nos cenários radiantes.
Deus é uma flor pequenina,
Precisa ser tocada delicadamente...
A alma das crianças são jardins...
Deus é um jardim repleto de flores
Em tons de cores diversas...
Deus é amor...
E o vento chega tão leve em nossos olhos...
Deus é uma criança que se esqueceu do tempo...
Ela brinca demoradamente,
Sem compromissos externos,
Ao pé das árvores frondosas.
Jorge Leão
Em 7 de dezembro de 2012

Ouvindo Bach...

Ouvindo Bach...

A passagem do tempo feito relva à tarde...

E quase não lembrávamos das fatalidades das horas.

 
O corpo se retorcia de tanto céu aberto...

Sentenças fáceis de traduzir:

como números em combinação harmônica.


Os sons, se há o canto do divino em ti...

Poderia pegá-lo com os pés.

 
Vejo-te em segredos pela melodia chegando com o vento.

São como linhas penduradas no armário de minha infância,

leve a correr sem tempo, como o sol resplandece agora...

 
Mãos tocando levemente as cordas de meu livro de memórias.

Elas são peças no jardim dos corpos em êxtase a vivificar as horas.

 
Vendo o dia após outro, recordando as folhas caídas.

Ouvindo o assobio no quintal...

como pardais a perder-te na imensidão dos galhos da samuameira...

 
Bach, então, venha para casa mais uma vez,

ao repouso simples e desejado de tuas mãos precisas e dadivosas...

 
Quero cantar-te como ária em sol maior,

e ouvir-te como fuga para o riacho em teu nome...

 
Jorge Leão

18 de dezembro de 2012

 
Samuameira: árvore amazônica, exuberante pelo grandioso caule e extensos galhos, vivem centenas de anos nas matas dando à região sublime harmonia de formas.

Bach: do alemão: riacho, arroio, regato, ribeiro.


Ao som das sementes caídas

Ao som das sementes caídas
Escutando o Piano concerto n. 1 (2 movimento) – F. Chopin
 
Ao lado destes campos e mares
onde habitam as luzes da alvorada.
A vida renasce, dentro das horas
em que as crianças brincam lá fora...
 
Como se no tempo dos relógios
algo de duradouro escapasse por nossas mãos.
Enquanto vejo em outros rios
a confluência de meu corpo em vibração.
É como se as notas deste piano
adentrassem em meu quarto...
Na madrugada do silêncio,
onde meus pés celebram a irmandade
do céu e da terra.
Deito-me...
Refaço a cada instante os lentos passos desta escada.
Entre tantos degraus desfeitos,
pelo adubo de minhas sementes em decomposição...
Jorge Leão
Em 15 – 11 – 2012

Sobre o filme "Trem da Vida"

Sobre o filme Trem da Vida

O filme "Trem da Vida" (Romênia, 1999), do diretor romeno Radu Mihaileanu, narra a saída de retirantes judeus de um vilarejo na Europa ocidental, em 1941, depois da notícia de que os nazistas estariam chegando para deportá-los.

A notícia é dada por Schlomo, considerado "louco" por todos do lugar. Todos perplexos, não sabem que decisão tomar, até que Schlomo sugere uma fuga em um fictício trem nazista, em que os moradores interpretariam papéis de soldados alemães, os maquinistas e os deportados.

O enredo segue o tema bíblico da saída para a "Terra Prometida", até que as encenações começam a ficar cada vez mais realistas, a ponto de iniciar-se disputas ríspidas entre os grupos formados: judeus ortodoxos, nazistas, marxistas e deportados. A trama, valendo-se deste recurso ficcional, sugere um interessante debate sobre a luta ideológica travada por estes grupos sociais naquele contexto histórico conturbado da vida européia.

Uma cena belíssima merece destaque, quando uma criança no colo de sua mãe, antes de uma parada do trem para uma celebração judaica, pergunta: "Ainda estamos longe?" - "Sim, meu querido" (responde a mãe). "A terra só é santa em um lugar?" (pergunta o menino) - "Tem razão, a terra toda podia ser santa. Bastaria querer. E nada mais seria distante" (responde mais uma vez a mãe).

Neste clima de disputa e conflitos, há também espaço para cenas cômicas, românticas e tensas; no ritmo ditado pela locomotiva, é possível perceber espaço para a narrativa dramática que flui no sentido de uma possível saída da situação instável em que se encontravam os deportados.

Um texto que abre espaço também para a crítica histórica ao momento terrível em que se encontravam os grupos étnicos perseguidos pelo regime nazista. Vale a pena a platéia conferir este belo filme. Sua trilha sonora também merece uma boa atenção.

Até o próximo cine filosófico!

at

Jorge Leão

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Contos da lua vaga (Kenji Mizoguchi, 1953)

Obra prima do cinema japonês, o filme "Contos da lua vaga", trazido ao Brasil pela Lume filmes, é uma fábula passada no Japão feudal (século XVI), ainda marcado pela violência da guerra civil e que conta a história de dois homens que partem com caminhos diferentes de suas casas; um deles, fazendeiro, marcado pela ambição do poder, quer tornar-se um grande samurai, deixando sua esposa abandonada; o outro, um talentoso fabricante de peças domésticas, quer enriquecer através do comércio, deixa também sua esposa com o filho pequeno.

A dramática partida de suas famílias coloca os dois homens diante da desilusão de uma busca não satisfeita pelo propósito de obter tão desejadas posses materiais. Voltando, os dois tentam reconstruir suas vidas, agora de maneira inesperada, pois o seu lugar de origem já estava completamente modificado pela passagem da guerra.

É considerado um dos mais importantes filmes do cinema japonês clássico. Recebeu o Leão de Prata, no Festival de Veneza de 1953. Merece ser revisto, e debater com a turma amante do cinema filosófico, em seu enredo, temas como separação, ânsia de poder, busca pela aceitação familiar diante de uma escolha precipitada, reconciliação.

Kenji Mizoguchi exprime aqui toda sua sensibilidade, em um texto rico de metáforas, belíssima fotografia e variadas simbologias existenciais.

Até o próximo encontro cinéfilo,
at
jorge leão

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A escola pode matar a imaginação?

Quando a escola perdeu a sua real possibilidade de trazer a lume a liberdade dos seres humanos? Em que práticas nos envolvemos, de modo a enlaçar o pensamento criativo de uma pessoa?

São questões necessárias, e até fundantes, quando o espaço de construção de novos cenários parece inóspito. Com esta breve provocação, surge, por implicância poética, outra inquirição: em que docência nos facilitamos com o tempo?

Penso que esta resposta não deve ser fruto de algo pontual. A escola, como instituição social, precisa exercer a construção da leitura em processo que é o mundo. A história nos cobra o olhar diante da realidade. Não estamos isolados e não é possível uma escola alheia ao que ultrapassa os seus muros.

Desse modo, a educação, como inserção racional e histórica do processo conhecimento humano, precisa exercer a garantia da criatividade e da responsabilidade livre, como política filosófica dos que se comprometem com um novo projeto de sociedade.

Ao longo dos anos, contudo, limitamos a racionalidade humana à utilidade pragmática do instrumental técnico, o que trouxe à ciência a amarga imagem de uma postura arrogante, inibindo ou mesmo matando a possibilidade de novas leituras dentro da escola, mais próximas daquilo que aponta para laços de cooperação, criatividade, autonomia, liberdade de pensamento.

Talvez o que se tema é a perda da “autoridade”, matando os poetas (que já morreram) nos cientistas e filósofos? Que vazio ficaria na alma sem a música dos poetas, capazes de reacender o prazer da descoberta. “Os poemas têm o poder de fazer ressuscitar os mortos que moram em nós” (Alves, 1987, 18). Este caminho fecundo atravessa somente os que se deixaram embebedar pela química da beleza, que abriga nossa criatividade, além de nossas planícies previsíveis das fórmulas científicas.

Com isso, não será mergulhando no espaço da reprodutividade técnica (expressão cara aos filósofos da escola de Frankfurt) que sairemos deste cenário normótico. Cabe a nós um propósito de ousar a transgressão, dentro dos limites históricos de nossas intermediações estruturais e conjunturais.

"Se, de fato, os seres humanos são criativos antes da escola e, ao chegarem a ela, tornam-se agentes passivos do sistema, estamos mergulhados num fosso de deseducação." (Ghedin, 2008, p. 68).

O que nos coloca o desafio de lançarmo-nos no tempo como visionários da poesia ausente, e, ainda que sem eco, de um espaço de livre pensamento, dentro das cadeias de tantos currículos engradeados e docências engessadas ao mecanismo reprodutivista do sistema de notas, num espaço em que quase sempre impera mais as relações "normativas que afetivas" (Delizoicov, 2007, p. 141).

Referências

ALVES, Rubem. A planície e o abismo. SP: Paulus, 1987 (Coleção: Estórias para pequenos e grandes).

DELIZOICOV, Demétrio, ANGOTTI, José A,. PERNAMBUCO, Marta M. Ensino de Ciências: fundamentos e métodos. SP: Cortez, 2007.

GHEDIN, Evandro. Ensino de Filosofia no Ensino Médio. SP: Cortez, 2008.
Atenciosamente,

Jorge Leão
Professor de Filosofia do Campus Monte Castelo - IFMA







sexta-feira, 13 de julho de 2012

De frente pro crime

No dia 11 de julho de 2012, com a turma 504, de Química, trabalhamos a questão: o ser humano, um ser que faz escolhas.
Foi trabalhado um texto, e em seguida apliquei a dinâmica dos três papéis, em que cada um deveria escrever em um pedaço: uma qualidade pessoal, um valor para a vida e uma pessoa que representasse uma referência. Depois, eles teriam que descartar dois papéis e ficar com o último, a fim de responder a pergunta: "que tesouro há oculto aqui?".
O debate foi muito bom, seguido da música "De frente pro crime", de João Bosco e Aldir Blanc. Eis a letra da música:

De frente pro crime
João Bosco - Aldir Blanc

Tá lá o corpo estendido no chão
em vez de rosto uma foto de um gol,
em vez de reza uma praga de alguém,
e um silêncio servindo de amém...

O bar mais perto depressa lotou,
malandro junto com trabalhador,
um homem subiu na mesa do bar,
e fez discurso pra vereador...

Veio o camelô vender anel, cordão, perfume barato,
baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato.
Quatro horas da manhã baixou o santo na porta bandeira
e a moçada resolveu parar e então...

Tá lá o corpo estendido no chão... 
em vez de rosto uma foto de um gol,
em vez de reza uma praga de alguém,
e um silêncio servindo de amém...

Sem pressa foi cada um pro seu lado
pensando numa mulher ou num time
olhei o corpo no chão e fechei
minha janela de frente pro crime...

Veio o camelô vender anel...
 (repete o refrão 4x)

Temas como indiferença, oportunismo e escolhas circunstanciais foram apontados como ligados à estrutura narrativa da música. O narrador-observador vê tudo de sua janela, enquanto várias pessoas em torno do corpo sentem-se movidas a fazerem daquele fato um pretexto para alcançar garantias de momento.
O debate oportunizou ampliar a discussão sobre conceitos como "habitação", "ethos" e "liberdade". Além de envolver a turma com a melodia ritmada pela interpretação do grupo vocal MPB4. Foi bastante estimulante ouvir, ao fim da aula, o coro da turma com o refrão da música.

domingo, 20 de maio de 2012

Nascidos em Bordeis (EUA, 2005)

Filme documentário, vencedor do Oscar em 2005, capta de modo direto e emocionante a história de crianças em uma situação extremada de abandono e exclusão.

Com a direção de Ross Kauffman, a fotógrafa Zana Briski passa a estabelecer de modo corajoso e tocante uma relação de profunda esperança com aquelas crianças.

No cenário dos bordeis, no bairro da Luz Vermelha, na periferia da cidade de Calcutá, na India, a diretora Zana Briski (tia Zana, como ficou conhecida entre as crianças) leva àquela situação terrível uma luz no fim do túnel, dando um curso de fotografia e fornecendo-lhes máquinas fotográficas para que elas registrem o seu olhar sobre o mundo que as cerca.

O resultado é uma exposição das fotos em Nova York, onde ela consegue divulgar a experiência e arrecadar fundos para tentar tirar as crianças da situação calamitosa em que se encontravam, dando-lhes oportunidade de estudar em um internato, em Calcutá, e também de participarem de uma exposição de seus trabalhos em uma grande livraria desta cidade.

A extrema sensibilidade de Zana Briski nos faz pensar sobre que valores sustentam o poder de um sistema fadado à pobreza e a consequente quebra dos sonhos no olhar de um ser humano que ainda está começando a despertar para a nua e crua realidade da vida. A saída dos muros dos bordeis para uma visita a um zoológico e depois à praia são dois momentos emocionantes do filme.

Pude trabalhar este filme com a turma 301, de Design de Produto, e estabelecer um debate com um texto lido sobre ética, em que destacamos alguns pontos, tais como: que conceito de valores nos passa a situação daquelas crianças? Como o ser de cuidado e afetos é considerado na apresentação do argumento do filme? Em que podemos relacionar a experiência relatada no filme com uma ética da responsabilidade solidária?

Percebi o quanto o filme ajudou-nos a pensar mais profundamente tais questionamentos...

Abraços,

Até uma próxima aula..

Jorge Leão

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Poema a Gonçalves Dias


Vibrante, és fecundo nos dias.
Cantando ao nativo as memórias...
Das noites o que mais tu serias,
senão o clamor nas histórias...

No poema, sobre o lamento e a dor...
Traduziste a canção do Piaga.
Deste solo pisado em furor
Por quem nestas matas indaga...

Teus passos nas ruas sentindo...
Acordo, neste solo, gemendo.
Ouvindo o teu canto sumindo,
Diante do ódio crescendo...

Revejo, porém, tua face
aos desejos inglórios da vida...
Recanto à criança que nasce,
Teu poema nesta terra ferida...

Por que, ao dizer do senhor...
O cenário é de morte e de cruz.
Por tal irascível clamor,
Volta o sangue, o martírio, em Jesus...

O pão sepultado em sementes,
agora escondido do vil Anhangá,
que chega provendo as torrentes
num desterro da tribo a clamar...

Inimigo das matas em trevas,
chega o tempo da anulação...
Deste povo, feito réu de suas ervas,
que outrora fecundavam este chão...

Foste, contudo, a voz, o percurso...
Entre viagens e dores sem par.
Teu povo nativo em concurso,
sem ver a própria ruína a chegar...

Tua pena, teu amor tão incerto.
Desbotando a recusa sem preço,
a manter a lembrança por perto,
como quem reza as contas de um terço.
Na praça, tuas cartas amadas
no silêncio vencido por dote.
Histórias inteiras contadas
como segredo no fundo de um pote.

Dias e noites, a lua cantada.
Tribos letárgicas ao passo de alerta:
é o espectro dissecando a cilada
do invasor nesta terra in-coberta...

Ao teu canto, o Piaga concede
a lembrança de um tempo em desterro...
Aviltando a terra que mede
a distância dilatando este erro.
Dias e noites, revejo o exílio
da sina de um povo insultado.
Hoje, a buscar ainda o seu brilho
no poeta, por seu canto lembrado...

Cantando a saudade além mar.
Em Coimbra, robustos segredos...
Trazidos à pena, ao deitar
em teus cantos, o assombro dos medos...

Em terras distantes, pesadas lembranças.
Dos primores, as palmeiras, o vento...
Agora, vejo-te imóvel, diante das danças,
que refazem em tuas mãos aquele momento.

Poeta nativo das várzeas floridas.
Emerge à lembrança um triste sinal:
emaranhado de lembranças perdidas,
por este retorno à terra natal...


Jorge Leão
16 de maio de 2012.





segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cidade passante...
Tão leve a condução das horas
na agonia do esquecimento...
Tão breve a perdição das moiras
nas ondas do mar adentro.

Tão perto o ribeirão das hortas
no desvio do corpo ao vento...
que anseia a chegar às portas
do céu sem esquecimento.

Tão perto a cidade ecoa
a memória dos segredos idos.
No esconderijo da pedra à toa
pelas calçadas destes becos sidos...

A lembrança da porta e janela
neste sobrado de meia morada.
Resplandece no altar sem vela,
corroendo o corrimão da escada.

Tão sãs as palavras dadas
nos tempos do Liceu imortal.
Agora, como dunas ilhadas,
vejo-te perdida na avenida central.

Tão verde os mastros da bandeira,
Arrancados os paus da mata em mangue.
Dos rios poluídos pela sujeira
Da química a secar teu sangue...

Ressoa em ti os delírios do passado.
Lendas e lampejos poéticos na memória.
Acorda com o sino, o corpo conspurcado,
nas ruas e ladeiras de tua história.

Tão leve e tão pesada,
Vejo-te, cidade minha, afundando
com a força de uma serpente entoada
pelos ditames lendários findando.

A cada esquina um dizer em jornal.
Hiato caminho à posteridade...
Fecundo mirante ao beiral,
daqueles que dormem em precariedade.

Trazendo assombrados desejos a lume.
Mesmo com a certeza das perdas.
Acordo aturdido nos telhados sem curtume
Dos bois celebrados sem tendas...

Que possam amparar os buracos do chão,
segredando a miséria da vida.
Ao ver no pedaço de um duro pão
a passagem da memória perdida...

Becos que se esvaem em risos e ecos...
ainda fruto dos passos ao vento.
De nós mesmos, colunas sem tetos,
a despertar de um vil juramento...

De que nesta ilha os amores reluzem
pelas ondas do encantamento.
Vejo-te, porém, sem mãos que traduzem
o teu passado, fecundo rebento...


Jorge Leão
12 de maio de 2012







quinta-feira, 19 de abril de 2012

A teoria do conhecimento sob o olhar não cotidiano

A teoria do conhecimento sob o olhar não cotidiano

Os conceitos epistemológicos trabalhados foram: percepção, imagem e
representação. A atividade sugerida nasceu da ideia de realizar uma intervenção
fotográfica no campus Monte Castelo, a partir da releitura do conceito de
espaço, em termos epistemológicos e éticos.

As turmas foram divididas em equipes menores, para melhor divisão das
tarefas. Durante a apresentação das fotos e dos vídeos editados pelas equipes, o
debate girou em torno da relação do cenário em foco, ambientado sob o olhar não
cotidiano, isto é, a captação das imagens possibilitou uma ressignificação da
história e da memória deste espaço.

As questões giraram em torno da preservação do patrimônio e da memória
histórica. Vários aspectos críticos foram apresentados, levando em consideração
os itens em debate. A turma pôde perceber que não nos damos conta dos problemas
que existem na escola, como lixo eletrônico, espaços abandonados, material
escolar sem uso, como carteiras, mesas e peças de valor histórico, abandonadas
pela passagem dos anos e pelo descuido da instituição sobre sua própria
historicidade.

A próxima etapa será levar este acervo audio-visual, e apresentar à direção
geral do campus, a fim de que possam ser tomadas algumas providências e
transformadas as reivindicações dos alunos em projetos que apontem soluções
práticas, inclusivas e sustentáveis para o olhar que estamos dando à nossa
realidade.

Como momento avaliativo, as turmas foram levadas a inserir as teorias
epistemológicas estudadas sob o ponto de vista de uma visão mais acurada de
nosso patrimônio, assim como poder relacionar conceitos como racionalidade,
empiria, dúvida metódica, sensibilidade, percepção e representação de modo
contextualizado e significativo para suas vivências como estudantes e pessoas
que habitam um espaço sem memória histórica (assim como acontece em nossa
cidade).

Os próximos trabalhos serão feitos em relação ao cenário da cidade de São
Luís, em que as turmas dos cursos de Quimica (504), Eletrotécnica (502) e
Comunicação Visual (301), terão como tarefa observar como o tema da pesquisa,
que visa aproximar a leitura da teoria do conhecimento, da ética e da estética,
a partir da cidade de São Luís.

Desse modo, teremos mais dois meses de trabalho para socializar este material
na escola, entre as turmas participantes e alguns professores envolvidos no
projeto São Luís 400 anos de história e o IFMA no cenário dessa história.

Agradecido pela atenção,

Até o próximo relato,

At

Jorge Leão

Professor de Filosofia do IFMA - Campus São Luís Monte Castelo

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Questões filosóficas nos filmes a partir da dúvida metódica cartesiana

Descartes no cinema...
O roteiro de estudo e as questões apresentadas às turmas, no contexto do estudo sobre dúvida metódica, racionalismo, empirismo, ceticismo, dogmatismo, foram os seguintes:
1 - Aprofundar o estudo sobre as teorias epistemológicas (história da filosofia);
2 - Destacar os principais problemas epistemológicos do filme;
3 - Discutir os temas em grupo e elaborar uma apresentação crítica e criativa, envolvendo domíno de conteúdo e ludicidade (originalidade);
4 - Elaborar individualmente um resumo crítico, relacionando os temas abordados e os principais problemas filosóficos em destaque, tendo como referenciais o argumento fílmico e a exposição das ideias mais relevantes sobre o assunto estudado em sala de aula;
5 - Depois da apresentação de cada equipe, a turma faz questões, apresenta dúvidas e sugestões sobre a apresentação dos colegas que apresentaram.
Este foi o roteiro seguindo nas apresentações das turmas 404 (Química), 204 (Eletrônica), 602 (Eletrônica) e 605 (Telecomunicações).
O desempenho das mesmas foi excelente!
até uma próxima sessão de cine e filosofia no IFMA...
at
Jorge Leão

Experiências com o cinema no segundo semestre de 2011




Experiências com o cinema no segundo semestre de 2011
Neste semestre, trabalhei com as turmas de filosofia, nos cursos integrados, uma outra forma de levar o cinema à sala de aula. Dividi-as em grupos (quatro ou cinco, conforme o numero de estudantes em cada turma), e cada um deles abordou um filme, a partir de dois assuntos estudados: teoria do conhecimento (nas turmas 404 - Química - e 204 - Eletrônica) e valores, liberdade e ética (turmas 602 - Eletrônica - e 605 - Telecomunicações).
A experiência obtida foi muito rica. Os assuntos foram debatidos com interesse e criatividade. Depois, houve debates muito interessantes. Os filmes analisados foram os seguintes: A vila, O Clube da Luta, Bicho de Sete Cabeças, The Matrix e O Nome da Rosa (sobre as teorias epistemológicas), e Gandhi, A lingua das mariposas, Mississipi em Chamas, 1984 e A sociedade dos poetas mortos (sobre o tema valores, liberdade e ética).
A avaliação que faço é excelente. O momento de descoberta destes temas polêmicos e complexos tornou-se possível pela fascinante possibilidade de adentrar no vasto campo filosófico em que se situam os mesmos por meio de trabalhos estéticos capazes de gerar grandes discussões e reflexões.
As turmas também avaliaram positivamente essa metodologia. Vou agora buscar novos elementos para seguir neste rumo. Novos filmes e temas, a fim de ampliar o gosto pelo estudo da filosofia e de sua aproximação com a vida dos estudantes.
Valeu, pessoal! Até um próximo comentário sobre nossos caminhos pela fértil relação entre filosofia e cinema, merecendo destaque para os esforços de cada um que se envolveu nas pesquisas, com responsabilidade, conteúdos contextualizados e um rico desenvolvimento crítico dos temas.
Até breve!
vejo vocês na próxima sessão de filmes filosóficos...
abraçs
Jorge Leão

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Conflitos epistemológicos em "O Nome da Rosa"...


Conflitos epistemológicos em "O Nome da Rosa"...

A trama do filme ocorre no ano de 1327, num mosteiro no norte da Itália. É baseada no livro homônimo, do escritor italiano Umberto Eco.

Um monge franciscano, William de Baskerville (interpretado pelo ator Sean Connery), e um noviço, Adso von Melk (vivido por Christian Slater), aproximam-se de um lugar misterioso, frio e distante de tudo, para um conclave, que iria decidir se a igreja deveria tomar posse de suas riquezas, ou ser pobre, desapegada de bens materiais. Um bom mote, para um cenário de grandes surpresas e conflitos.

Durante sete dias ocorrem sete assassinatos, o que desperta uma investigação cuidadosa por parte do monge e de seu pupilo. No entanto, tal atitude será combatida pelos beneditinos, que comandam o mosteiro, e atribuem as mortes às artimanhas malignas do diabo.

Chega então o Grão Inquisidor, Bernardo Gui, para pôr fim a qualquer suspeita de heresia, cometida em nome das artimanhas do maligno. Este aspecto reconduz a trama para o limite de um conflito entre William e Bernardo, uma vez que este defende a ideia de que as mortes são, de fato, obras de um espírito maligno, que aterrorizava o mosteiro.

A trama se esclarece, quando surge em cena a discussão sobre um livro de Aristóteles, que seria considerado perigoso à doutrina católica de então. É desse modo que William começa a juntar as pedras deste intrincado quebra-cabeça. Tudo por conta do riso. Isso mesmo. Lá, nas páginas de Aristóteles, o riso configura um elemento capaz de oferecer satisfação ao espírito. O que, na interpretação dos beneditinos, constituía uma afronta ao próprio Deus, uma vez que, segundo eles, o silêncio e a prece são condições para uma proximidade com o divino. Qualquer espaço para um cômico deslize, e a alma estaria confinada ao inferno.

Neste caminho de busca por um lado e mistério por outro, surge o caminho que dá para uma enorme biblioteca. O labirinto em que se encontra uma das maiores bibliotecas da Cristandade é um símbolo interessante, na busca empreendida por William e Adso, rumo à descoberta da verdade. Neste labirinto ocorre a dramática queima dos livros. O que nos passa um cenário de destruição, e de tentativa a todo custo de manutenção do poder, por parte da ideologia dominante da igreja.

No fim, Adso vive o drama do amor a uma bela jovem, que vive com ele uma experiência sexual passageira, mas intensa, que o marca profundamente. Ele, porém, resolve seguir viagem com o seu mestre, e continuar desbravando os caminhos do conhecimento.

Neste debate, pude trabalhar com os estudantes temas como: controle ideológico, conflitos de poder no processo da busca pela verdade, dogmatismo ingênuo, racionalismo, nominalismo. Sendo bastante oportuna a compreensão de que havia uma estreita relação entre a situação vivida pela filosofia na Baixa Idade Média (período em que se dá a trama do filme) e sua influência na formação cultural européia no processo de transição do modelo teocêntrico para a racionalidade renascentista, que começava a despontar nos círculos acadêmicos, de modo gradativo e consistente.

Vamos chamar então os professores de História, Artes, Sociologia e História da Ciência, para um debate filosófico sobre "O Nome da Rosa". Penso que será um projeto muito bom para todos que se aproximarem e participarem.

Até o próximo cine filosófico em sala de aula...

Jorge Leão

04 de fevereiro de 2012.