terça-feira, 3 de março de 2009

O Enigma de Kaspar Hauser


O Enigma de Kaspar Hauser

O instigante filme “O Enigma de Kaspar Hauser” (ano de 1974), do cineasta alemão Werner Herzog, vencedor do Grande Prêmio do Júri, no festival de Cannes, em 1975, levanta para nós um tema filosófico polêmico, a saber: há uma racionalidade própria à natureza humana, ou ainda, é possível admitir uma natureza humana?

O drama do personagem, interpretado por Bruno S., que não era ator profissional, mas que trabalhou com muito esforço com o diretor alemão, é iniciado, mostrando-o sozinho, sentado, isolado, emitindo sons como de um animal, envolvendo um pano velho em um cavalo de brinquedo. Ele se encontra preso por um corrente, bebe água e come um pedaço de pão. É quando chega um homem vestido de preto, põe um banquinho à sua frente, entregando-lhe um papel e um lápis, forçando-o a escrever. Kaspar Hauser tenta segurar o lápis e escrever algo sozinho. Diante disso, levanta-se outra questão: já há no ser humano uma predisposição para a linguagem, em termos de uma ação consciente?

Em seguida, ele é carregado pelo homem, que o leva para o alto de um monte, pois o nosso personagem não sabe sequer andar. Com muita dificuldade, ele dá os primeiros passos. Aqui, fica explícito o entendimento de que o ambiente determina tanto aspectos físicos, quanto psico-sociais ao ser humano.

Algumas fotografias expõem de modo simples e belo os campos, os telhados, o relógio, a vila, imagens que refletem a mente obscura de um ser isolado, e que agora precisa urgentemente descobrir o mundo. O homem de preto vai-se, e Kaspar Hauser permanece imóvel no meio da praça com uma carta na mão, sendo observado pelos moradores, até que alguém pergunta a ele aonde quer ir, e se pode ajudá-lo, entregando a carta que segura a seu destinatário. O capitão da cavalaria, a quem foi destinada a carta, lê a história daquele rapaz com aspecto de uma criatura abandonada, isolado do convívio social. Não é possível extrair nada dele, como num interrogatório policial. Ele não fala e nem reage às perguntas. O único sinal é o seu nome, que é assinado no papel dado a ele. Resolvem, por isso, isolá-lo em uma cela, dizendo que devem enquadrá-lo nas normas legais, ainda que não parecesse ser ele um vândalo, dizem os guardas, que depois o levam para a casa de um dos moradores da vila.

Lá, o nosso enigmático personagem tem contato com uma família muito caridosa, que ensina a ele os hábitos sociais básicos, como sentar-se a mesa, pronunciar as palavras e frases, aprender a relacionar-se com o mundo a sua volta, ao tentar memorizar um poema ensinado pela filha do guarda da prisão e dono da casa, ou ao brincar com um passarinho, dando-lhe alimento. Ele ainda é capaz de se emocionar com uma criança nos braços, dizendo: “Mãe, sou desprezado por todos”, depois de ser motivo de zombaria para um grupo de bêbados arruaceiros.

Os oportunistas que o vigiam levam-no para o circo, a fim de tirar proveito de interesse público, como a grande atração. De lá ele passa a morar na casa do Sr. Daumer, um sujeito que assistia ao espetáculo circense, e que lhe dá todas as condições para que, enfim, seja despertada nele a potencialidade de socialização.

Ao ouvir o piano, já na casa do Sr. Daumer, ele diz: “Soa forte no meu peito a música. Estou muito velho? Por que tudo é tão difícil para mim? Por que não posso tocar piano como respiro?”... O Sr. Daumer responde a ele que, passados dois anos de convívio, ele já aprendera muita coisa, mas que ainda deve aprender tudo, pois nunca estivera entre os homens antes. Ao que Kaspar Hauser responde: “Para mim os homens são como os lobos”. Aqui, percebemos que, ao ter o domínio da linguagem, o personagem começa a colocar uma dúvida sobre a sua suposta “pureza”, como se essa denotasse uma impossibilidade de análise mais depurada da realidade. O que parece aqui ser ponto para reflexão é: a dita “civilização moderna” não delimita o poder de criticidade do homem, quando de seu processo de socialização?...

A própria existência de Deus é levada por dois teólogos a Kaspar Hauser, com o objetivo de doutriná-lo. “Já tinha alguma idéia de Deus?”, pergunta um dos teólogos. Ele apenas responde: “No cativeiro eu não pensava em nada, e não consigo imaginar que Deus do nada criou tudo, como vocês me disseram”. Um dos teólogos retruca imediatamente: “Deve admitir o mistério da fé sem procurar entender”. Mas, sabiamente, responde Kaspar Hauser: “Primeiro, preciso aprender a ler e a escrever melhor para compreender o resto”...

Vê-se que são questões polêmicas, agora situadas no contexto de uma possível resposta crítica a ser dada pelo personagem, como se o mesmo tivesse agora que lutar contra um sistema de códigos lingüísticos, ideológicos, estéticos, lógicos, teológicos, morais, prontos para extrair de sua mente uma resposta pronta e acabada. Duas cenas são marcantes para ilustrar esse embate: a primeira, em que Kaspar Hauser pergunta à governanta do Sr. Daumer: “para que servem as mulheres, e por que só lhe permitem cozinhar e fazer crochê?”, ao que ela desconversa e pede que isso seja perguntado ao Sr. Daumer; a segunda, quando um professor de lógica lança uma situação problema de caráter lógico dedutivo, dizendo que só há um modo de respondê-la, e depois da demonstração do professor, Kaspar Hauser apresenta outra possibilidade de resposta, o que, obviamente, não é aceito pelo ortodoxo professor. Pessoas como Kaspar Hauser são nessas horas consideradas loucas e inoportunas...

Com isso, o convívio social torna-se uma tortura para o nosso personagem. Numa recepção nobre, na casa de um conde inglês, ele se sente mal e sai, depois de expressar no piano o que sentia em sua alma através da valsa em Fá Maior, de Mozart. Em seguida, ele sai correndo da igreja, dizendo que a canção dos fiéis soa em seus ouvidos como um grito horrível. Fica aqui explícita a idéia de que não há enquadramento possível para Kaspar Hauser, capaz de satisfazer a sua busca interior. É quando ele é agredido em sua casa, com duas pauladas na cabeça. Ele parecia incomodar algumas pessoas. A sua indiferença aos padrões. O seu jeito “anti-social”. Mas faltava uma coisa a ser dita por ele. É quando ele tem uma visão profética. “Eu vi o mar. Eu vi uma montanha, e muita gente. Estavam todos subindo a montanha, como uma procissão. Havia muita neblina. Eu não conseguiria enxergar claramente. E lá em cima, estava a morte”.

Depois de recuperar-se, ocorre outro atentado, agora para conduzi-lo de vez à morte. Nos momentos derradeiros, já no leito de morte, Kaspar Hauser conta a sua última história. “Vejo uma caravana que vem pelo deserto atravessando a areia, guiada por um velho cego. A caravana parou, alguns acreditam que eles se perderam, pois se depararam com as montanhas. Eles não conseguem seguir a bússola. Então o guia cego pega um punhado de areia e a come, como se fosse uma comida. ‘Meus filhos’, diz o cego, vocês estão errados, isto diante de nós não são montanhas, e sim , apenas sua imaginação. Prosseguiremos para o norte’. E então, sem discutirem, eles prosseguiram adiante e chegaram na cidade. E lá a história continua. Mas a história nesta cidade, eu não sei. Eu agradeço por terem ouvida minha história. Estou cansado agora”...

Kaspar Hauser morre, e é logo autopsiado. Os médicos legistas examinam o seu cérebro e percebem uma deformidade, o seu lado esquerdo é menor. Isso dará um lindo processo investigativo. O escrivão, que relata o drama de Kaspar Hauser desde o seu início, afirma: “Finalmente temos a melhor explicação que podíamos achar sobre este estranho personagem”. Uma fala que nada mais representa do que a tentativa de justificar a ineficaz condução social dada pelos anos de não adaptação de Kaspar Hauser a um sistema ideológico alicerçado na burocracia das normas prescritas, segundo modelos fixos de padronização sócio-cultural.

Observa-se desse modo que é mais cômodo colocar a culpa da não sociabilidade do personagem a algum fator fisiológico, do que mergulhar fundo na questão antropológica da vida social e seus desdobramentos nem sempre logicamente demonstráveis e cientificamente comprováveis. Não estaria o filme de Herzog levantando outra possibilidade de responder à polêmica acerca de uma natureza pura do homem ou de uma racionalidade inata, que também necessitaria, para ser melhor compreendida, de afetividade, imaginação, criatividade e amor? Fica para nós a reflexão, em tons de polêmica e controvérsias...

Jorge Leão
Professor de Filosofia do Instituto Federal do Maranhão, e membro do Movimento Familiar Cristão
Em: 03 de março de 2009

domingo, 1 de março de 2009

A liberdade

Amigos e amigas da sabedoria,
aí vai um texto sobre esse tema instigante para a filosofia, e é trabalhado no tópico Introdução ao estudo da Ética,
abraços quixotescos,

Jorge Leão

A liberdade

As gaiolas estão agora vazias. Todos os pássaros que nela estavam se foram... Agora estão gozando de ventos, fortes ou fracos, voando por sobre as cabeças daqueles que um dia os escravizaram. ..Seria um sonho, essa tal liberdade? Confundir-se- ia com a libertação de algo ou de alguém? Exigiria um abrir drástico de tantas e tantas gaiolas que insistem em permanecerem fechadas?

Perguntas e perguntas...

Todas em vão...Qual o sentido de tais desejos, se deles não pudéssemos extrair algo de real e participante em nosso tato? Tato, por vezes, tão insensível... Insensibilidade e o seu avesso, talvez sejam estes os grilhões que nos aprisionam ou queiram carnalmente nos humanizar... Sensibilidade dos santos, que viram ser possível o sonho de suas mais remotas esperanças, liberdade em sentido vital, por isso, lançaram-se tão misteriosamente aos braços do Divino Senhor... Sensibilidade aos apelos das calçadas... Liberdade da escuta e do serviço... Se somos realmente livres, como nos limitarmos às imposições dos dogmas da escravidão social?

Perguntas e perguntas...

As gaiolas estão agora vazias... Restam a água e um pouco de alpiste; e o essencial, ao nosso mesquinho odor de liberdade, o pássaro? Não está mais ali, fechado, resumido, limitado... Venceu a frieza do túmulo, levantou-se. .. afastou a pedra do sepulcro, voou simplesmente! E agora?...

Perguntas...

Eu estaria em paz vendo todos os pássaros voando... Todas as crianças brincando, sorrindo e correndo... Todas as mesas fartas de pão e de amor... Vendo cada poema de caridade sendo levado aos altares abençoados todos pelo desejo visceral do Pai de todas as liberdades. Enquanto não chega esse tempo, sinto-me cada vez mais prisioneiro de todas as liberdades, manifestando o irrequieto ardor de ir à busca do concreto das respostas.

Respostas concretas...

Liberdade vivida a cada passo, a cada pulsação, a cada respirar... Liberdade que canta o canto de Francisco de Assis... Liberdade que não se cansa de abrir as portas das gaiolas, deixando-as ulteriormente repletas de teias de aranha... Liberdade que nasce na terra e continua no céu... Respostas concretas... Liberdade viva... Assim, creio que minhas dúvidas e perguntas não sejam em vão ou se tornem vãs, esquecidas pela escravidão do tempo.

Jorge Leão
Em: 31 de janeiro de 1997.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sobre os riscos dos "fast-foods"

Para reflexão dos amigos da sabedoria...

Sobre os riscos dos “fast-foods”

“Não há tempo para perder, preciso comer um lanche rápido, um “fast-food”, estou com pressa”... Essa declaração aparentemente banal retrata o ritmo de muita gente nas grandes cidades. Enquanto isso, o corpo adoece silenciosamente, e mais tarde aparecem as ditas “doenças crônicas”, que a medicina declara que não há cura, mas só tratamento.. .

Indubitavelmente, existe hoje uma indústria da doença, que anda de mãos dadas com a indústria farmacêutica dos remédios. Os mesmos remédios, atolados de química, que não vão à causa dos problemas, mas apenas retardam a proliferação dos sintomas já existentes no corpo. Se houvesse um real inteiro de grande parte dos médicos com a saúde, e tudo que essa palavra implica, não haveria tanta morte e dor por um lado, e tanta gente enriquecendo com a fábrica das doenças por outro.

Ora, como se sabe, grande parte das doenças consideradas “incuráveis” pela moderna medicina nascem de desequilíbrios na alimentação e na vida urbana pobre de experiências de paz, espiritualidade e beleza.Um exemplo claro disso são os ditos “fast-foods”, como aqueles que se encontram no McDonald´s e Bobs da vida, com alto teor de gorduras, corantes e substâncias químicas as mais nocivas. "O risco - dizem os mais céticos - pode até vir, mas só daqui a alguns anos; então por que se preocupar agora, o bom mesmo é desfrutar de um bom hamburger, com batatas fritas e uma Coca-Cola bem gelada"...

E com esse descrédito, a nossa péssima conduta alimentar, com o passar dos anos, se encarrega de depositar no sangue o acúmulo de impurezas e toxinas que nós mesmos jogamos cotidianamente em todo o organismo. A grande interrogação que é gerada com tudo isso é: se sabemos dos malefícios de uma alimentação desequilibrada, por que não mudamos nossos hábitos alimentares? ...

Pesquisas recentes comprovam o aumento acelerado de câncer no estômago e intestinos, órgãos que são agredidos todos os dias com a nossa pressa e gula. O pior é que a indústria do alimento enlatado vende uma propaganda sedutora do prazer por um paladar irresistível, contrariando a facilidade de encontrar nas frutas e nos legumes um prazer que não se delimita apenas a boca, mas é capaz de prevenir e curar inúmeras doenças.

Muito do que padecemos hoje é fruto dessa falsa imagem de que precisamos comer carne e encher o estômago para saciar a fome. Os nutricionistas hoje recomendam refeições de três em três horas, em quantidades menores, alternando as grandes refeições (preferencialmente na parte da manhã) com o uso de frutas. Medidas como essas mudam a abordagem do conceito de saúde e de doença, pois o corpo passa a responder rapidamente ao tratamento que damos a ele, seja de cuidado ou de descaso...

Assim, o que se compreende por saúde aqui é a percepção que nós temos de nossa alimentação, e que deve ser acompanhada de um equilíbrio espiritual e mental. A alimentação natural, ou pelo menos o mais próximo possível disso, não é algo desconectado, mas integrado, pois quem sabe o porquê de uma alimentação natural, pode certamente ser instrumento de um mundo mais belo, mais pacífico, mais justo.

Como já sabemos, o impacto da matança de animais no planeta é ecológico, pois desmata milhares de quilômetros de floresta para criar bois que vão ser massacrados no matadouro para satisfazer um prazer mesquinho que não dura às vezes dez minutos, como é o caso de um hambúrger que precisa ao equivalente de seis metros de mata fechada para produzir o efeito final de sua produção.

É uma violência que nós não precisamos ser cúmplices. O planeta agradece, nosso estômago também.As pequenas mudanças causam impactos planetários.

Podemos começar hoje mesmo a grande revolução por um mundo melhor. Está em nossas mãos e em nossa mente a escolha.

Abraços fraternos,

Jorge LeãoProfessor de Filosofia do Instituto Federal do Maranhão e membro do Movimento Familiar Cristão

Em: 18 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Um comentário sobre o espetacular "Nuovo Cinema Paradiso"


Um comentário sobre o espetacular "Nuovo Cinema Paradiso"


Filme italiano, lançado no ano de 1988, “Nuovo Cinema Paradiso” recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Globo de Ouro em 1990, assim como o Grande Prêmio do Júri, no Festival de Cannes, em 1989. Com enredo e direção de Giuseppe Tornatore, o filme retrata a trajetória de Salvatore di Vitto, na pequena cidade de Giancaldo, na Sicília, nos anos que antecederam a chegada da televisão, depois da Segunda Guerra Mundial.

Na cidade, a única diversão é o cinema, lá as pessoas se encontram, constroem romances, se emocionam com as histórias inesquecíveis dos filmes passados pelo projetista Alfredo (interpretado pelo ator Philippe Noiret), que conhece o menino Salvatore, conhecido por todos pelo apelido carinhoso de Totó (interpretado pelo talentoso Salvatore Cascio). O menino é apaixonado por cinema, e não deixa Alfredo sossegado até que este transmite a Totó o manejo da arte de projetar filmes. Ocorre, porém, um grave incêndio na sala de projeção, sendo que Alfredo é salvo pelo menino; no entanto, com o acidente, fica cego e nunca mais poderá ver os filmes, levando por isso Totó a assumir o cargo.

Quando adolescente, Totó apaixona-se por Elena (interpretada por Agnese Nano), o seu grande e eterno amor. A trama amorosa dura toda a sua vida, quando Salvatore retorna à terra natal depois de trinta anos, como um cineasta bem sucedido, para o enterro de seu grande amigo Alfredo. A sua volta é recheada de uma profunda nostalgia pelo passado, num tempo em que a cidade vivia seus momentos de alegria em função do Cinema Paradiso, que agora não era mais que ruínas e escombros. Rever o velho projetor, carinhosamente guardado em seu quarto por sua velha mãe, conversar com ela sobre coisas nunca ditas, voltar ao velho cinema abandonado, e lá encontrar as marcas de suas lembranças, desde o tempo de infância. Lembrar-se de seu grande amor, ao ver uma menina andando de vespa pelas ruas da cidade. Era como se Salvatore pudesse ver o rosto de Elena como há trinta anos. A semelhança era tamanha que Salvatore seguiu a menina por alguns dias, e descobriu seu endereço, confirmando sua suspeita, de que era mesma a filha de Elena.

O encontro com o passado trouxe em Salvatore a possibilidade de reviver uma grande paixão, o que ocorre de fato, mesmo que de modo passageiro. Elena (agora interpretada pela atriz Brigitte Fossey) tem o rosto envelhecido, mas o olhar penetrante de uma jovem adolescente esperando pelo grande momento de sua vida. A beira da praia era o lugar preferido de Salvatore, quando buscava a solidão. O encontro só podia mesmo ser lá. Elena o encontrou. A vida os aproximou de modo jamais previsto, embora que silenciosamente aguardado pelos dois. Era a possibilidade de viver o grande amor de suas vidas, ainda que efêmero. O amor de apenas uma noite, tão fugaz como a própria noite. O encontro aguardado durante tanto tempo, que deveria ter ocorrido há trinta anos, se não fosse a súbita mudança de planos na família de Elena em mudar-se de Giancaldo, e a opinião de Alfredo, que disse a Elena que tanto esforço talvez não valesse muito aos dois. O encontro na escuridão de uma noite que nunca mais voltaria enfim aconteceu...

Para Salvatore, algo tão maravilhoso deveria durar para sempre, mas Elena recusa-se a viver esse amor, falando de sua vida atual e de tudo o que a vida trouxe aos dois, depois de tantos anos. Salvatore deve retornar a Roma, cidade onde vive e que pôde construir uma carreira de fama e sucesso. Era preciso esquecer tudo mais uma vez, assim como Alfredo lhe dissera um dia, quando de sua partida da pequena Giancaldo.

Salvatore leva consigo o último presente deixado pelo velho amigo Alfredo e projeta em sua sala de cinema. Eram as cenas de beijo, cortadas pela censura do padre conservador da pequena cidade de Giancaldo. Todos os beijos censurados, agora livremente expostos graças à generosidade de Alfredo, que consegue ainda falar ao coração de Salvatore, por meio de cenas tão ansiosamente aguardadas pelos espectadores do Cinema Paradiso, e que somente ele, depois de longos anos, tem a oportunidade de vê-las.

A última cena é particularmente marcante, de uma beleza plástica indescritível, que emociona de modo a nos deixar embalar mais uma vez pela belíssima melodia de Andrea e Ennio Morricone, música que eternizou a trilha sonora do filme. A cena nos aproxima daqueles sinais de um tempo que retorna pelas imagens de um cinema repleto de pureza, sentimento e beleza. Era a época áurea do cinema italiano, e também de clássicos do cinema norte-americano, que marcaram definitivamente a memória do pequeno Totó, agora um cineasta famoso, sentado atonitamente diante de lembranças marcadas pelo vislumbramento de uma vida impossível de ser revivida, apenas recordada, mas, ainda assim, profundamente sentida. Cinema Paradiso é por tudo isso um filme para ser visto e revisto várias vezes, como os filmes do passado, passados na memória presente de Salvatore de Vitto e agora em nossas próprias recordações, revividas por meio da maravilhosa arte do cinema, que permitiu a tantos amores que se encontrassem e que também se fossem.

Jorge Leão
Professor de Filosofia do Instituto Federal do Maranhão e membro do Movimento Familiar Cristão

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sobre o filme "A Vida é Bela"



A Vida é Bela!

A seguir a síntese do filme "A Vida é Bela", vencedor de 3 Oscars, (emocionante, comovente, humano, belo!) trabalhado no CEFET-MA em novembro de 2008, com os estudantes das turmas de Desing (2 ano) e de Eletrotécnica (1 ano), na disciplina de filosofia, tendo como fundamentação teórica o tema: valores, liberdade e Ética. O debate em sala possibilitou questões interessantes sobre os personagens, que no contexto do filme foram envolvidos num cenário de extrema ausência de liberdade e de perda da dignidade humana, os campos de concentração nazista durante a Segunda Grande Guerra. Contudo, a relação de amor entre Guido, sua amada Dora e seu filho Giosué é o ponto-chave do enredo. O amor é o que alimenta o sonho do pai em dar ao filho um presente (por ironia, um tanque de guerra), que certamente virá, se Giosué acreditar que é verdade. O sonho da liberdade, tantas vezes limitado por condições inóspitas, ressurge aqui como presença fecunda de um amor sem limites.
Como culminância das atividades, os jovens filósofos produziram textos dissertativos procurando envolver o tema estudado com o filme apresentado.

Ficha Técnica:

Título Original: La Vita è Bella
Gênero: Comédia Dramática
Tempo de Duração: 116 minutos
Ano de Lançamento (Itália): 1997
Direção: Roberto Benigni
Roteiro: Vincenzo Cerami e Roberto Benigni
Produção: Gianluigi Braschi e Elda Ferri
Música: Nicola Piovani
Direção de Fotografia: Torino Delli Colli
Desenho de Produção: Danilo Donati
Direção de Arte: Danilo Donati
Figurino: Danilo Donati
Edição: Simona Paggi

Elenco: Roberto Benigni (Guido Orefice), Nicoletta Braschi (Dora), Giorgio Cantarini (Giosué Orefice), Giustino Durano (Tio de Guido), Sergio Bini Bustric (Ferruccio Papini), Marisa Paredes (Mãe de Dora), Horst Buchholz (Dr. Lessing), Amerigo Fontani (Rodolfo), Pietro De Silva (Bartolomeo), Francesco Guzzo (Vittorino).

Sinopse: Na Itália dos anos 40, Guido (Roberto Benigni) é levado para um campo de concentração nazista e tem que usar sua imaginação para fazer seu pequeno filho acreditar que estão participando de uma grande brincadeira, com o intuito de protegê-lo do terror e da violência que os cercam.

Abraços fraternos a todos os amigos e amigas da sabedoria,
Jorge Leão

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Para os jovens do corpo e da alma

Um texto para os que se fazem jovens sempre, a lembrar da beleza da eterna juventude enquanto corpo e alma somos e estamos...
abraços fraternos,
Jorge Leão
Para os jovens do corpo e da alma

Ficamos aturdidos quando o tempo nos impõe seus limites. Mesmo sem compreender o porquê dos acontecimentos, reconhecemos que somos mortais. Resta-nos então a espera da poeira que baixa, quando a casa festivamente aguarda a chegada de mais um aniversário.

Do mesmo modo, o sorriso deixado pelo amigo que se foi. As lembranças guardadas no baú da saudade. Estes são, de fato, os fatos que se transformam em versos de amor, e abrandam o sentimento de incompletude deixado pela inexorável passagem do tempo.

E o que dizer de nosso corpo, que se perde como as folhas secas do outono? O sereno cuidado dos braços maternos, segredo incontido dos tempos de infância, acaba por desnudar a alma da mais pura beleza da vida. É quando descobrimos que ganhamos e perdemos muitas coisas na vida...

O mistério de um abraço apertado, o doce segredo da primeira paixão, o chocolate escondido atrás da poltrona da sala, os pés sujos de lama, os cabelos molhados depois de um inesquecível banho de chuva, a ansiedade para amanhecer no dia de Natal e abrir os presentes, a vela acesa na sala quando a energia da casa faltava, o cheiro da terra depois da noite chuvosa. Esses são momentos de fecundidade, que traduzem nosso pertencimento ao perene estado de ser jovem.

Ser jovem... Um jovem de vinte e poucos anos, ou mesmo um com os seus cinqüenta, ou quando a juventude aflora em sua magnitude aos oitenta. Não importa o período, o número, a extensão, a medida. O que vale mesmo é a saudade. Por isso, é bom lembrar vivamente o passado presente e esquecer o futuro. O passado não presente precisa ser mesmo passado, e esquecido, pois desprovido de vida.

Os tempos gramaticais pouco contam aqui, quando o que nos mantém vivos é a umidade da terra, prenhe de sinais fecundos, aptos para mais uma primavera chegando. Muitos jovens do corpo envelhecem antes do tempo, pois não têm tempo de ter saudade. São os tempos modernos, dizem os especialistas.

Embora reconhecendo a velocidade do ritmo urbano que nos consome, é possível ainda ouvir alguns sons divinos, é quando sobrevivem no fundo da terra os segredos inesgotáveis dos que se fazem jovens da alma. Talvez o encantamento divinal mais plausível seja o som da eterna juventude que bombeia nossos corações, levando para o corpo a vitalidade cristalina de uma voz milenar, a nos dizer: “viva intensamente cada momento de cada dia”...

Talvez resida aí o segredo do envelhecimento natural. E a irresistível vontade de buscar a fonte de água pura, nas montanhas preciosas da liberdade pelo amor. Quando perguntaram a um mestre iluminado como fazer para alcançar a sabedoria, ele respondeu: “respire profundamente e sentirás a energia da vida, assim terás a sabedoria como companheira”.

Ou seja, o grande mistério da felicidade reside nas coisas mais simples, mais singelas, lavadas com a água da verdade e com o perfume da sinceridade. Pior caminho é esquecer de caminhar. Pior veneno é não amar.

Melhor então é respirar com consciência e ouvir a incansável sinfonia da natureza. Já podemos cantar o hino da felicidade, pois o segredo da eterna juventude reside dentro de nós mesmos. Qualquer busca será em vão, se esquecermos de viajarmos para dentro de nós mesmos. Nesta viagem embarcam os jovens do corpo e da alma, eternos habitantes do reino das graças de Deus.

Jorge Leão
09 de janeiro de 2009

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Roteiro para avaliação por meio de Seminário

Apresento aqui um breve roteiro para trabalhar com avaliação por meio de um Seminário...

Roteiro para atividade com Seminário

1 - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DOS CONTEÚDOS
(o professor deve expor a fundamentação teórica nas aulas expositivas)

2 - PROBLEMATIZAÇÃO
(aqui o professor poderá trazer questões relativas a uma possível aplicação dos conteúdos com questões contemporâneas, ou ainda trazendo um texto, um filme, ou uma dinâmica de grupo para ilustrar o que foi fundamentado, e isso para qualquer disciplina)

3 - DIVISÃO DA TURMA
(poderá ser feita conforme o número de alunos por sala, o correto é não passar de seis alunos por equipe)

4 - O ROTEIRO DA APRESENTAÇÃO
(o professor deve frisar a importância do grupo trabalhar os problemas em conjunto, evitando com isso a fragmentação em partes, cada aluno "decorando" a sua, e perdendo de vista o todo, e as demais equipes, inclusive; isso dependerá muito de como o professor fundamentou o conteúdo, pois se sua visão também for fragmentada, a tendência será os alunos reproduzirem esse modelo reducionista)

5 - A AVALIAÇÃO DO SEMINÁRIO
( o professor deve propor que as equipes, depois de suas apresentações, socializem na escola os resultados dos trabalhos por meio de uma exposição no pátio, indicando possíveis soluções para os problemas levantados no estudo).

Bem, penso que esses são pontos fundamentais para o desenvolvimento de um bom seminário,

abraços,
Jorge Leão