quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Dos meus poros escorrega

Dos meus poros escorrega
Sei das mãos que se passam em terra alheia
Como esta escalada em que feito pó estamos todos
Ventos e cascalhos, quando todos dormem
Mas, detenho-me a apreciar o singelo segredo das manhãs...
É como um cenário posto em chama
Meu corpo, invadido pelo mar, a cada estação
Fatídico espetáculo de última hora
Sei das perdas de cálcio neste mundo trôpego...
Dos meus poros escorregam a dor e a saudade
Como ratos e baratas em torno de livros de infância
Assim percorre meu semblante, e o dia ainda tardio
Por cima de tempos repletos de memória...
Nas esquinas de meus ossos, vejo-te acordada
É o teu corpo deitado, aberto ao sol da manhã
E o simples desejo de morrer, acaba sendo outro
Por quase uma vida, no lugar das notas dissonantes...
Assim, arco em fino vergar-se, deixo o dia caindo
Mais e mais... sou assim como segredo de poeira estelar
Passando em velozes constelações, brilhos fugazes
Fratura recôndita, que em meus travados eixos me lançam...
Jorge Leão
11 de novembro de 2012

Reencantos

Reencantos
                                                                                         Durante o Encontro do Evoé!
Junto à passagem da memória,
na ausência dos caminhos,
apontando linhas como uma festa inacabada...
As margens...
Este rio que nos traz ao fundo originário desta jornada
que não se dissolve com o tempo...
Pedras como um corpo dilacerando-se,
sem o tempo que tínhamos na infância.
Nossos fios de cabelo, que se perdem entre nossos cupins intestinais.
Sem pressa, estamos à escuta como frutos
caindo pelo lento e contínuo desfazer-se de velhos galhos contorcidos...
Entre memórias e lentas recordações,
nossas palavras derramam na terra o sangue de nosso abraço incontido.
No quintal, o sol torna-se uma palavra.
No quarto, minhas mãos ainda sujas de barro...
agora vejo as sementes da philia fecundando em nossas almas
a lenta retomada de nossos sentidos fugazes...
Até o momento, nossos passos são pedras decaídas no imenso oceano deste silêncio,
que acompanha a morte em torno de nossas bocas comovidas pelo desejo do reencontro...
o que nos envolve como a canção ao fundo...
como poeira estelar, até que os abraços acontecem...
Corpos que se entrelaçam e se refazem,
pois agora as palavras são como gotas de chuva,
bastando o encontro e um semblante puro.
Agora, nossos olhos se encontram diante das mãos
que acordam as sementes no fundo da terra...
São os versos que se entrelaçam em nossos corpos...
até o momento, o cuidado ainda provém de nossos encantamentos,
mas está o tempo próximo...
e nele mãos e pés serão o encontro de um olhar à terra
prometida que nos acolhe a cada amanhecer...
Evoé! no Bar do Leó - na madrugada de quase lua cheia, do dia 24 de novembro de 2012
Presentes: Wandeco, Fred, Rodrigo, Jorge, Rafael, César e Bernardo.

Deus é uma criança...

Deus é uma criança...
Brincando nos campos
Sorrindo, contente, ao ver o sol da manhã
E as flores nos cenários radiantes.
Deus é uma flor pequenina,
Precisa ser tocada delicadamente...
A alma das crianças são jardins...
Deus é um jardim repleto de flores
Em tons de cores diversas...
Deus é amor...
E o vento chega tão leve em nossos olhos...
Deus é uma criança que se esqueceu do tempo...
Ela brinca demoradamente,
Sem compromissos externos,
Ao pé das árvores frondosas.
Jorge Leão
Em 7 de dezembro de 2012

Ouvindo Bach...

Ouvindo Bach...

A passagem do tempo feito relva à tarde...

E quase não lembrávamos das fatalidades das horas.

 
O corpo se retorcia de tanto céu aberto...

Sentenças fáceis de traduzir:

como números em combinação harmônica.


Os sons, se há o canto do divino em ti...

Poderia pegá-lo com os pés.

 
Vejo-te em segredos pela melodia chegando com o vento.

São como linhas penduradas no armário de minha infância,

leve a correr sem tempo, como o sol resplandece agora...

 
Mãos tocando levemente as cordas de meu livro de memórias.

Elas são peças no jardim dos corpos em êxtase a vivificar as horas.

 
Vendo o dia após outro, recordando as folhas caídas.

Ouvindo o assobio no quintal...

como pardais a perder-te na imensidão dos galhos da samuameira...

 
Bach, então, venha para casa mais uma vez,

ao repouso simples e desejado de tuas mãos precisas e dadivosas...

 
Quero cantar-te como ária em sol maior,

e ouvir-te como fuga para o riacho em teu nome...

 
Jorge Leão

18 de dezembro de 2012

 
Samuameira: árvore amazônica, exuberante pelo grandioso caule e extensos galhos, vivem centenas de anos nas matas dando à região sublime harmonia de formas.

Bach: do alemão: riacho, arroio, regato, ribeiro.


Ao som das sementes caídas

Ao som das sementes caídas
Escutando o Piano concerto n. 1 (2 movimento) – F. Chopin
 
Ao lado destes campos e mares
onde habitam as luzes da alvorada.
A vida renasce, dentro das horas
em que as crianças brincam lá fora...
 
Como se no tempo dos relógios
algo de duradouro escapasse por nossas mãos.
Enquanto vejo em outros rios
a confluência de meu corpo em vibração.
É como se as notas deste piano
adentrassem em meu quarto...
Na madrugada do silêncio,
onde meus pés celebram a irmandade
do céu e da terra.
Deito-me...
Refaço a cada instante os lentos passos desta escada.
Entre tantos degraus desfeitos,
pelo adubo de minhas sementes em decomposição...
Jorge Leão
Em 15 – 11 – 2012

Sobre o filme "Trem da Vida"

Sobre o filme Trem da Vida

O filme "Trem da Vida" (Romênia, 1999), do diretor romeno Radu Mihaileanu, narra a saída de retirantes judeus de um vilarejo na Europa ocidental, em 1941, depois da notícia de que os nazistas estariam chegando para deportá-los.

A notícia é dada por Schlomo, considerado "louco" por todos do lugar. Todos perplexos, não sabem que decisão tomar, até que Schlomo sugere uma fuga em um fictício trem nazista, em que os moradores interpretariam papéis de soldados alemães, os maquinistas e os deportados.

O enredo segue o tema bíblico da saída para a "Terra Prometida", até que as encenações começam a ficar cada vez mais realistas, a ponto de iniciar-se disputas ríspidas entre os grupos formados: judeus ortodoxos, nazistas, marxistas e deportados. A trama, valendo-se deste recurso ficcional, sugere um interessante debate sobre a luta ideológica travada por estes grupos sociais naquele contexto histórico conturbado da vida européia.

Uma cena belíssima merece destaque, quando uma criança no colo de sua mãe, antes de uma parada do trem para uma celebração judaica, pergunta: "Ainda estamos longe?" - "Sim, meu querido" (responde a mãe). "A terra só é santa em um lugar?" (pergunta o menino) - "Tem razão, a terra toda podia ser santa. Bastaria querer. E nada mais seria distante" (responde mais uma vez a mãe).

Neste clima de disputa e conflitos, há também espaço para cenas cômicas, românticas e tensas; no ritmo ditado pela locomotiva, é possível perceber espaço para a narrativa dramática que flui no sentido de uma possível saída da situação instável em que se encontravam os deportados.

Um texto que abre espaço também para a crítica histórica ao momento terrível em que se encontravam os grupos étnicos perseguidos pelo regime nazista. Vale a pena a platéia conferir este belo filme. Sua trilha sonora também merece uma boa atenção.

Até o próximo cine filosófico!

at

Jorge Leão

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Contos da lua vaga (Kenji Mizoguchi, 1953)

Obra prima do cinema japonês, o filme "Contos da lua vaga", trazido ao Brasil pela Lume filmes, é uma fábula passada no Japão feudal (século XVI), ainda marcado pela violência da guerra civil e que conta a história de dois homens que partem com caminhos diferentes de suas casas; um deles, fazendeiro, marcado pela ambição do poder, quer tornar-se um grande samurai, deixando sua esposa abandonada; o outro, um talentoso fabricante de peças domésticas, quer enriquecer através do comércio, deixa também sua esposa com o filho pequeno.

A dramática partida de suas famílias coloca os dois homens diante da desilusão de uma busca não satisfeita pelo propósito de obter tão desejadas posses materiais. Voltando, os dois tentam reconstruir suas vidas, agora de maneira inesperada, pois o seu lugar de origem já estava completamente modificado pela passagem da guerra.

É considerado um dos mais importantes filmes do cinema japonês clássico. Recebeu o Leão de Prata, no Festival de Veneza de 1953. Merece ser revisto, e debater com a turma amante do cinema filosófico, em seu enredo, temas como separação, ânsia de poder, busca pela aceitação familiar diante de uma escolha precipitada, reconciliação.

Kenji Mizoguchi exprime aqui toda sua sensibilidade, em um texto rico de metáforas, belíssima fotografia e variadas simbologias existenciais.

Até o próximo encontro cinéfilo,
at
jorge leão