sábado, 28 de junho de 2008

Pra que serve a filosofia, afinal?

Há um espaço vazio nas escolas. É o caos da oportunidade. Ele está na mente de nossas crianças. A tarefa que se impõe é: ainda teremos tempo?...
As atividades escolares são muito aceleradas. Não temos tempo para conversar...

Ontem, eu encontrei meu filho se masturbando na sala, eu não sabia o que fazer. Eu tenho uma prova de cálculo diferencial para aplicar amanhã com os meus acadêmicos...

Chegam os filósofos, contando façanhas e mistérios do sonho da razão.
Eles afastam as regras e caminham na estrada das pedras...
Eles adoram me chamar para conversas longas e demoradas. Haja paciência e tempo, que hoje não tenho...

A estrada das pedras é um caminho sem fim. Ninguém ganha nem perde. É um jogo de feitiços gratuitos. Eu realmente não entendo para que tantas pedras...

Amanhece na praça, os meninos e meninas na rua olham para os cantos e choram com a fome de mais um dia sem fim. Mas foi rápido, meu filho já está seguro na escola...

Eu, como chefe dos acadêmicos, doutor em filantropia, me encontro perdido. Eu sou um verme, acho. Junto àqueles que não sabem pra que serve a matemática. Mas, meu estômago sempre dói quando leio os livros do Marx, eu nunca passo do primeiro capítulo...

Eu odeio Platão. E todos esses fecundos e ilustres profetas da alma. Mas, o pátio da minha escola continua vazio. E não há lugares aqui para poetas, nem para devaneios. Eu amo Platão. Mas ainda tenho que entregar um relatório para o ministério da instrução privada. Aqui eu corro contra o tempo.

Agora eu entro nas salas como diretor afastado, que não sabe quem são os alunos que acordam sem ânimo para freqüentar aulas sem sangue em minha escola. Eu sou um burocrata.

Eu ainda não percebi os riscos do pedagogismo... Eu recebo meus colegas para um café em minha casa, aos sábados. A gente assiste às novelas e depois toma uma boa cerveja.

Mas, eu adoro papéis. Trabalho numa sala quente, ao lado da igreja. Eu escuto todos os dias à tardinha o badalar dos sinos. Eu acredito em fadas. Sou meio crente, e meio cético. Eu não sei o que sou; eu penso na morte...

Então, sentado na varanda, deitado em minha rede, penso um pouco comigo mesmo e chego a falar em voz alta: pra que serve a filosofia, afinal?...
Pra que servem as minhas aulas? Pra que servem as minhas pílulas?

Acho que o vendedor de sorvete está chamando. Meu sobrinho adora um bom sorvete de coco. Vou lá ver se ele faz um preço camarada...

Amanhã, a sirene da escola me espera bem cedo...

Jorge Leão
Professor de Filosofia do CEFET-MA e membro do Movimento Familiar Cristão

Um comentário:

Kadmo Ribeiro disse...

Prof. Jorge Leão, como sempre, um bom texto, crítico e refinado. Na parte do texto que fala sobre acordar cedo e desanimado, lembrei-me da época que fazia eletrônica... awhwahwah. Abraço!