sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Uma lição de filosofia...

Caros amigos e amigas da sabedoria e da arte... mando-lhes um texto sobre um intrigante conto de Machado de Assis, "Ex Catedra", visto aqui em contraponto com a concepção de ensino do filósofo francês Michel de Montaigne,
abraços, amigos, no coração de vocês...
Jorge Leão

Uma lição de filosofia...

O conto “Ex Cátedra”, de Machado de Assis (1839 – 1908), retrata a relação entre Caetaninha e seu padrinho Fulgêncio, um homem viciado em leitura. Ele lia em excesso, “lia de manhã, de tarde e de noite (...) lia antes de ler e depois de ler, lia toda casta de livros, mas especialmente direito (em que era graduado), matemáticas e filosofia; ultimamente dava-se também às ciências naturais” (ASSIS, 2002, p. 139). Contudo, Fulgêncio já dava os primeiros sinais de demência; não sabia mais nem o seu nome. Ele “vivia do escrito, do impresso, do doutrinal, do abstrato, dos princípios e das fórmulas. Com o tempo chegou, não já à superstição, mas à alucinação da teoria” (Idem, p. 140).

Seguindo a rotina de uma casa abastada e pacata, Caetaninha e Fulgêncio recebem a visita do jovem Raimundo, sobrinho de Fulgêncio. O pai do garoto havia falecido. Ele passa então a morar na casa de seu tio… O tempo passa e Fulgêncio arquiteta um plano para casar os dois. Mas, antes era necessário que eles tivessem uma base científica sobre as coisas do amor, pois, para Fulgêncio “um homem e uma mulher, desde que conhecessem as razões físicas e metafísicas desse sentimento, estariam mais aptos a recebê-lo e nutri-lo com eficácia, do que outro homem e outra mulher que nada soubessem do fenômeno” (Ibidem, p. 142). Assim, o velho professor vai à estante de sua biblioteca e prepara um programa de estudos capaz de amadurecer as duas crianças. São livros e livros sobre os mais variados temas, tais como “astronomia, geologia, fisiologia, anatomia, jurisprudência, política, lingüística”(Idem, p. 143). Era necessário transformar toda aquela enciclopédia em um assunto corriqueiro, de tom familiar. Começou desse modo pelas estrelas. A explicação fascinou os ouvidos atentos de Caetaninha e Raimundo, e todos os dias eles queriam saber algo mais sobre o céu e as estrelas. A astronomia os fascinou...

Os dias se passaram na chácara, mas os interesses dos dois iam mudando, à medida que eles se aproximavam um do outro com interesses extra-pedagógicos. Raimundo ensinara Caetaninha a galopar. Com isso, doravante, os passeios a cavalo eram constantes. O encanto amoroso foi dominando os seus corações. Trocaram flores, como sinal evidente desse encantamento. Entretanto, continuaram as lições, embora os dois nada entendessem sobre “uma idéia geral do universo, e uma definição da vida” (Idem, p. 145). A confusão aumentou quando Fulgêncio começou uma demonstração, “profundamente cartesiana”, sobre a existência do homem. Perguntando a eles se sabiam se existiam e por quê, o riso foi a reação imediata de Caetaninha, mas, ficando séria em seguida, admitiu que não sabia, sendo acompanhada sua resposta com a de Raimundo.

A atenção às lições de Fulgêncio foi perdida, apesar de todo o seu esforço catedrático, metódico e sistemático para transmitir o seu ensino. Parecia inútil tanto labor, pois “enquanto o velho falhava, reto, lógico, vagaroso, curtido de fórmulas, com os olhos fixos em parte nenhuma, os dois alunos faziam trinta mil esforços para escutá-lo, mas vinham trinta mil incidentes distraí-los” (Idem, p. 145). Os olhos de Caetaninha estavam voltados para um casal de andorinhas, pousado no muro da chácara. Depois, em devaneio, imagina Raimundo consigo no muro. Até um diálogo entre dois besouros apaixonados alimenta o sonho amoroso na mente da menina...

As lições sobre a existência do homem exigiam, porém, mais atenção dos alunos. O assunto era de ordem de metafísica, versando sobre uma lição das mais árduas para a filosofia. O próximo tema a ser estudado seria a organização das sociedades, seguindo para a definição e classificação das paixões, e por fim, passaria o velho professor a discorrer sobre o amor, pois, segundo ele, já era tempo...

Fulgêncio fecha a porta e entra. O casal, enfim, sozinho na varanda. De repente, ouve-se um trovão de beijos, segundo o relato de algumas lagartas da chácara. Não se sabe ao certo se foram eles os autores, pois um velho gafanhoto alegou que “ouvira muitos beijos em lugares onde nem Raimundo nem Caetaninha pusera os pés” (Idem, p. 148). Talvez dois beijos, três ou quatro, não um trovão de beijos...

Terminada a leitura, perguntamos: que elementos de análise nos restam a partir do conto “Ex Cátedra”? Entendemos que é possível observar no conto machadiano um elemento característico do professor Fulgêncio: suas análises metafísicas, científicas, literárias e políticas versavam sobre um plano projetado exclusivamente por ele, sem a devida relação com a história de vida de seus alunos. O descrédito e a desatenção foram logo percebidos, quando o amor encontrou o coração de Caetaninha e Raimundo. Parece que, segundo o relato, o amor é algo mais vivo que as lições metafísicas sobre a existência do homem. Assim, precisaremos agora apontar alguns elementos para reflexão sobre o ensino de nossas disciplinas escolares.

A filosofia, por exemplo, ao ser transmitida de modo enciclopédico, pode ser motivo de cansaço e descontentamento por parte dos alunos, apesar do esforço de muitos professores, e de sua complexa e sistemática exposição argumentativa, fato esse muito comum no ensino da filosofia atualmente.

O filósofo francês Michel de Montaigne expõe sua preocupação sobre o ensino de filosofia, enfatizando que o professor precisa levar a criança a “provar as coisas, e as escolher e discernir por si próprio, indicando-lhe o caminho certo ou lho permitido escolher” (MONTAIGNE, 2003, p. 13). Por isso, antes de forçá-la a memorizar dados sem significados, é necessário dar vida às lições. Montaigne condena o sistema de ensino oferecido às crianças, pois ele apenas transmite algo construído por outros. Ele observa, como Sêneca, que esses ouvintes “nunca se dirigem por si próprios”. Desse modo, “não se trata de aprender os preceitos dos filósofos e sim de lhes entender o espírito” (Idem, p. 13). E ainda Montaigne afirma que “os elementos tirados de outrem, ele os terá de transformar e se misturar para com eles fazer obra própria, isto é, forjar sua inteligência” (Ibidem). Trata-se desse modo de dar liberdade de pensar às crianças.

O processo de ensino pretendido por Montaigne assim incide em tornar a criança autora de sua elaboração, livre e capaz de pensar por si mesma. Ele assinala, por isso, que “certamente tornaremos a criança servil e tímida se não lhe dermos a oportunidade de fazer algo por si” (Idem).

O método de ensino implementado pelo professor Fulgêncio segue a orientação oposta àquela sugerida por Montaigne, uma vez que inviabiliza o processo de autonomia de seus ouvintes. Os alunos, portanto, não seriam obrigados a decorar fórmulas prontas, mas a exercer sua liberdade de pensamento e de expressão, podendo, inclusive, relacionar a filosofia a todos os assuntos de sua vida “como formadora de inteligência e dos costumes”. Precisamos agora saber se o ensino de filosofia pretendido por nós, professores de filosofia, seguirá os passos das lições do professor Fulgêncio ou das linhas apontadas por Montaigne.

Jorge Leão
Professor de Filosofia do CEFET-MA e membro do Movimento Familiar Cristão, em São Luís – MA.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ASSIS, Machado de. Contos. São Paulo, FTD, 2002.

MONTAIGNE, Michel de. Da educação das crianças (12). SÁTIRO, Angélica e WUENSCH, Ana Miriam. In: Pensando Melhor – Iniciação ao filosofar. Manual do Professor, São Paulo: Saraiva, 2003, pp. 13-14

2 comentários:

filosofia com arte disse...

Novamente, uma oportunidade para encontrarmos em Machado de Assis pistas e mais pistas para dinamizar as aulas de filosofia...
Abraços em todos os amantes da filosofia e da literatura machadiana...
Não parem de ler esse patrimônio...
Até o próximo conto!
Jorge Leão

jessika disse...

otimo texto o blog esta interessante esse tipo de comentario e 1 incentivo p q vcs continuem com esse trabalho maravilhoso!!!!!!!!bjos amigos!