O filme “Luzes da Cidade” (1931), escrito e dirigido por Charles Chaplin, apresenta a temática do amor sob o prisma da vida de um Vagabundo, que, espontaneamente, encanta-se por uma vendedora de flores, que é cega, interpretada pela atriz Virginia Cherril.
A sátira aos convencionalismos sociais, tão típica na obra de Chaplin, é uma constante no filme. Logo na primeira cena, um monumento em praça pública é inaugurado, para exaltar a Paz e a Prosperidade. Todavia, a fala dos burocratas é confusa, de compreensão impossível. Ao aparecer as imagens das grandes estátuas, surge, para espanto de todos, o Vagabundo, dormindo no alto. A cena segue em ritmo de comédia e com protestos de todos, devido ao jeito irresponsável com que o Vagabundo ironiza o monumento.
Depois de ser ridicularizado pelos garotos que vendem jornal e se deparar com uma estátua de um corpo feminino nu, o Vagabundo sai de mansinho, quando vê que sai do subsolo um homenzarrão. Em seguida, o filme encaminha uma de suas cenas mais belas. O encontro entre o Vagabundo e a jovem vendedora de flores é marcante. Inicialmente, ele não sabe que ela é cega, só percebendo mais tarde, quando ela pergunta se ele tinha recolhido a flor caída no chão. Ao colocar a flor no bolso de seu paletó, ela pensa que ele é um homem rico que entra no carro e sai. Ao perceber o engano, o Vagabundo sai cautelosamente...
O outro encontro interessante no filme é entre o Vagabundo e um homem rico, embriagado, que, desiludido do casamento terminado, tenta se matar várias, sendo impedido pelo personagem de Chaplin. Sua palavra é enfática, para impedir o suicídio do bêbado: “Amanhã, os pássaros cantarão”, e ainda: “Seja corajoso, enfrente a vida!”. Eles vão para a casa do homem desiludido. Lá, o mordomo comunica que as bagagens de sua patroa foram levadas. Mais uma vez, o homem começa a beber e oferece álcool ao Vagabundo, os dois então se embebedam, numa cena muito engraçada. Eles saem para uma festa, para esquecer a triste desilusão...
Cedo pela manhã, voltam para casa. O homem rico diz para o Vagabundo que ele pode ficar com o seu carro. Entretanto, o mordomo não permite sua entrada na mansão. A menina cega passa com suas flores, e o homem rico solicita a presença do amigo em sua casa. “Compremos algumas flores”, sugere o Vagabundo ao amigo desiludido. Ao entregá-las ao mordomo, o Vagabundo sai com a menina cega para um passeio de carro, levando-a até sua casa. Ele beija a mão da menina e pergunta se pode visitá-la outras vezes. Ela diz que sim. Ao entrar em casa, a menina sente que está apaixonada.
Ao despertar, o homem rico acorda sóbrio, e estranha as flores em seu colo. Ele não quer ver ninguém. O Vagabundo entra, mas logo é expulso de casa pelo mordomo. Ele sai no carro e rouba o charuto de um transeunte. Voltando, o seu amigo não o reconhece mais; ele fica só com o seu charuto, andando solitário pelas ruas...
Na mesma tarde, o Vagabundo encontra-se novamente com o homem rico, que, outra vez bêbado, o chama de amigo, dizendo que vai dar uma festa em sua homenagem. No outro dia, depois de muita festa na mansão, o Vagabundo está deitado junto com o homem rico em sua cama. Este pergunta a seu mordomo quem é aquele indivíduo, e manda tirá-lo de sua casa. O Vagabundo quer, pelo menos, um pão para comer, mas é expulso...
Na rua, o Vagabundo não encontra a menina vendendo flores. Resolve ir a casa dela. Ela está com febre. Ele se entristece, e resolve trabalhar como limpador de ruas, para ajudá-la. O aluguel da casa está atrasado, a menina e sua avó recebem ordem de despejo. O Vagabundo descobre no jornal que há um médico que realiza uma cirurgia para curar a visão. Ao pegar um livro para ler à sua amada, o Vagabundo encontra a carta de despejo. Resolve então ajudar a pagar toda a dívida. Porém, é despedido de seu emprego. Tenta a vida como lutador, mas perde a luta. Volta então a perambular pelas ruas...
Lá, encontra o homem rico, bêbado outra vez, que o abraça, e o reconhece como amigo. Chegando a casa, o Vagabundo consegue a quantia necessária, ao pedi-la ao homem rico. Contudo, a casa está sendo assaltada. A polícia é chamada, os ladrões fogem. O Vagabundo, por sua aparência, é confundido com um ladrão. Ele ainda tenta convencer o policial que não foi ele quem roubou o dono da casa, mas não tem êxito e foge apressadamente.
Ao chegar à casa da menina, entrega-lhe o dinheiro, para pagar o aluguel e realizar a cirurgia. Ela se emociona com o gesto de nobreza do Vagabundo. “Como poderei agradecer-lhe?”. Ele apenas beija a mão da menina e vai embora. Ela senta e chora. Depois, o Vagabundo é reconhecido pela polícia e levado preso. Parece que sua sorte é mesmo amarga...
Quando chega o Outono, a menina está curada e tem agora a sua própria loja de flores, junto com a sua avó. O Vagabundo é solto, mas as suas roupas estão velhas. Ele é maltratado pelos garotos que vendem jornal na rua. Uma flor no chão é observada por ele. A esperança parece renascer. A loja de flores está em sua frente. Ele reconhece a dona da loja, é o seu amor...
Ele sorri para ela, que lhe oferece uma flor e uma moeda. Apenas a flor é aceita. A moeda é levada à mão do Vagabundo. Ela reconhece aquela mão. Os olhos do coração dela se abrem, reconhecendo que o seu amor voltou e está em sua frente. Ele pergunta se ela pode enxergar. “Sim, agora eu posso ver”. O amor dela vai além dos olhos físicos. O Vagabundo sorri para ela com a flor e as mãos dadas às da sua amada. O filme termina com uma pureza e beleza incomensuráveis.
O Vagabundo de Chaplin nos conduz à visão que desanuvia a miopia de nosso egoísmo e a estreiteza de nossa vaidade. O seu guia é o amor, desinteressado e incondicional. O mesmo amor, que enxerga longe e profundo, mesmo na escuridão de nossas tormentas. A nossa visão é, então, restituída. A visão do espírito. O amor não é cego, nós é que às vezes fechamos os olhos a ele.
Jorge Leão
Professor de Filosofia do CEFET-MA e membro do Movimento Familiar Cristão, em São Luís – MA.


