terça-feira, 30 de setembro de 2008

Comentários sobre o filme "The Matrix"

Amigos, um texto sobre filosofia no filme "The Matrix", até o próximo encontro...
Jorge Leão

Comentários sobre o filme The Matrix

O projeto trabalhado em sala de aula, desde o ano de 2004, vem dando resultados interessantes e suscitando trabalhos muito bons e debates calorosos entre os estudantes, ele se chama SÓCRATES, MATRIX E A FILOSOFIA, e visa estabelecer uma relação entre os temas abordados pelo filme "The Matrix" (1999), dirigido pelos irmãos Andy e Larry Wachowski, e os conceitos fundamentais do pensamento socrático, sobretudo o auto-conhecimento e o drama da liberdade. Outro elemento textual importante utilizado foi o mito da caverna, de Platão (Cf. A República, livro VII). Neste item, o professor pode trabalhar o papel da filosofia no mundo, como elemento reflexivo, capaz de situar o ser humano como uma espécie de retrato ou cópia de modelos que não estão contidos nas sombras do imediatismo cotidiano. O debate poderá ser estabelecido a partir da inauguração da democracia ateniense, e Sócrates como personagem fundamental neste contexto histórico. Um texto muito bom é "Introdução pensamento filosófico", de Karl Jaspers, em particular o momento em que este filósofo trata da "filosofia no mundo", indicando que a filosofia está em constante luta com várias anti-filosofias, e que ela mesma pode vir a tornar-se uma delas...

Em relação ao filme "The Matrix", é importante considerar os seguintes elementos: a inteligência artificial, que produz máquinas, mecanicamente reproduzidas em campos de criação, que sugam a energia corpórea e mental dos seres humanos, agora submetidos ao sistema da eficácia produtiva. A tecnologia dos programas de computadores gera, por isso, um sistema de domínio, a Matrix. O plano problemático da discussão está no controle da mente por esse sistema, pois o fornecimento de energia para as máquinas gera a reprodução de novas cópias, novas máquinas. Aqui, é possível trabalhar uma relação interessante com os conceitos de "sombras" e "realidade", desenvolvidos por Platão, no mito da caverna.

Sobre os personagens do filme, Neo é o "escolhido", pois ele, depois de um duro processo de aprendizagem e de busca, entra no campo da iluminação, isto é, compreende o conhecimento como uma jornada evolutiva, desde a sua dimensão corpórea, suas habilidades mentais, até os seus valores, os seus afetos e a sua liberdade de escolha, ou seja, o processo de busca pela verdade sobre si mesmo envolve o ser humano em sua totalidade. Morpheus é o personagem que ilustra o papel do filósofo, aquela seta que aponta caminhos e indica o processo de busca, que é iniciado dentro de cada ser humano, em sua consciência despertada (aqui, o professor poderá estabelecer uma analogia interessante com o conceito de "Buda", isto é, "aquele que despertou", e trabalhar novamente o papel de Sócrates entre os jovens atenienses). Trinity representa o amor, a via de acesso à plenitude humana, por meio da doação a uma causa suprema, que também dá sentido à liberdade humana. O oráculo, tal como na Grécia Antiga, tem o papel de indicar novos caminhos, por meio de uma revelação sobre quem somos, diante daquilo que julgamos saber sobre nós mesmos. Os agentes, homens vestidos de preto, comandados pelo agente Smith, ilustram os elementos que lutam contra a libertação da consciência da Matrix (vários são estes elementos que podem ilustrar a atuação dos agentes, tais como o poder da alienação, os interesses egóicos, a mente desequilibrada com o corpo, a fuga de si mesmo, a escravidão à posse de bens materiais, o desejo de dominação etc.).

Por fim, a Matrix representa a "caverna", o mundo sombrio, repleto de semelhantes aparências, mas que encobre a visão diante do Sol, que permanece fora da Matrix, imperceptível aos interesses imediatistas do agir sem conhecimento filosófico.

Aqui, o professor dinamiza o estudo levantando questões que podem ser desenvolvidas a partir da seguinte tarefa: os estudantes, reunidos em grupos, deverão agora criar uma Matrix, explicar a sua dinâmica funcional, e propor uma saída para ela. Depois, os trabalhos deverão ser apresentados sob a forma de seminários, debates, dramatizações e um texto escrito por cada estudante sobre a pesquisa desenvolvida.

Até o próximo diálogo entre filosofia e cinema.

Jorge Leão

6 comentários:

Dayanna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dayanna disse...

Perfeito!!!
Sem dúvidas esse filme faz parte da história dos alunos das turmas do terceiro ano de 2007. Todos os trabalhos revelaram que realmente os alunos entenderam o significado da MATRIX dos dias de hoje,tanto que buscaram exemplos dessas matrix's na realidade de nossa sociedade, e com muita criatividade apresentaram seus trabalhos com dramatizações e outras linguagens artisitcas para encontrar suas saídas, ou seja, proporam uma solução para as ilusões do mundo.
Foi uma oportunidade única de aprendermos o objetivo da filosfia: levar o homem ao autoconhecimento.
Sou eternamente grata por tudo. Foi um trabalho difícil e até pensavamos que não conseguiríamos.
Obrigada professor Jorge Leão por acreditar, assim como Sócrates, que o conhecimento já estava em nós. E você, o Filósofo,nos ajudou a trazer esse conhecimento à tona.

filosofia com arte disse...

Dayanna, querida, lembro bem dos labirintos suspensos criados pela turma 202, como voces foram criativos naquela apresentação, ainda tenho algumas fotos lá em casa sobre este dia. Ainda sobre o trabalho, vi que vocês realmente estavam empenhados em descobrir uma saída para tantas matrix's descobertas. O debate foi também muito bom, deveria ter sido gravado, anotei algumas coisas que vocês disseram, mas muitas delas já se perderam em minha memória. Obrigado, querida, por lembrar deste dia. Beijos! Jorge Leão

patricia disse...

Obrigada por ter postado isto. Eu tbm estudei o Matrix em Filosofia aqui em Portugal.

fernando disse...

Muito bom, iniciei este ano a lecionar filosofia numa escola pública,e por falta de material didático recorro a internet, e foi ótimo o que encontrei aqui. Obrigado

Alecson disse...

obrigado pelo comentario me ajudou muito no meu trabalho de filosofia sobre o filme e o pensamento socratico.